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Macunaíma - Mário de Andrade
Macunaíma e a renovação da linguagem literária
Publicado em 1928, numa tiragem de apenas oitocentos exemplares (Mário
de Andrade não conseguira editor), Macunaíma, o herói
sem nenhum caráter, é uma das obras pilares da cultura brasileira.
Numa narrativa fantástica e picaresca, ou, melhor dizendo, “malandra”,
herdeira direta das Memórias de um Sargento de Milícias (1852)
de Manuel Antônio de Almeida, Mário de Andrade reelabora literariamente
temas de mitologia indígena e visões folclóricas da Amazônia
e do resto do país, fundando uma nova linguagem literária, saborosamente
brasileira.
Macunaíma - bem como Memórias Sentimentais de João Miramar
(1924) e Serafim Ponte Grande (1933), de Oswald de Andrade - foram obras revolucionárias
na medida em que desafiaram o sistema cultural vigente, propondo, através
de uma nova organização da linguagem literária, o lançamento
de outras informações culturais, diferentes em tudo das posições
mantidas por uma sociedade dominada até então pelo reacionarismo
e o atraso cultural generalizado.
Nacionalista crítico, sem xenofobia, Macunaíma é a obra
que melhor concretiza as propostas do movimento da Antropofagia (1928), criado
por Oswald de Andrade, que buscava uma relação de igualdade real
da cultura brasileira com as demais. Não a rejeição pura
e simples do que vem de fora, mas consumir aquilo que há de bom na arte
estrangeira. Não evitá-la, mas, como um antropófago, comer
o que mereça ser comido.
O tom bem humorado e a inventividade narrativa e lingüística fazem
de Macunaíma uma das obras modernistas brasileiras mais afinadas com
a literatura de vanguarda no mundo, na sua época. Nesse romance encontram-se
dadaísmo, futurismo, expressionismo e surrealismo aplicados a um vasto
conhecimento das raízes da cultura brasileira.
A rapsódia
Mário de Andrade nos conta que escreveu Macunaíma em seis dias,
deitado, bem à maneira de seu herói, em uma rede na “Chácara
de Sapucaia”, em Araraquara, SP. Diz ainda: “Gastei muito pouca
invenção neste poema fácil de escrever (…). Este
livro afinal não passa duma antologia do folclore brasileiro.” A
obra, composta em apenas seis dias, é fruto de anos de pesquisa das
lendas e mitos indígenas e folclóricos que o autor reúne
utilizando a linguagem popular e oral de várias regiões do Brasil.
Trata-se, por isso mesmo, de uma rapsódia. Assim os gregos designavam
obras como a Ilíada ou a Odisséia de Homero, que reúnem
séculos de narrativas poéticas orais, resumindo as tradições
folclóricas de todo um povo. Para o musicólogo Mário de
Andrade, o termo certamente remete às fantasias instrumentais que utilizam
temas e processos de composição improvisada, tirados de cantos
tradicionais ou populares, como as rapsódias húngaras de Liszt.
Segundo Oswald de Andrade, “Mário escreveu nossa Odisséia
e criou duma tacapada o herói cíclico e por cinqüenta anos
o idioma poético nacional”.
É
importante notar que, além de relatar inúmeros mitos recolhidos
e diversas fontes populares, Mário de Andrade também inventa,
de maneira irônica, vários mitos da modernidade. Apresenta, entre
outros, os mitos da criação do futebol, do truco, do gesto da “banana” ou
do termo “Vá tomar banho!” Há, em Macunaíma,
portanto, além da imensa pesquisa, muita invenção.
As fontes
Mário de Andrade nunca escondeu que tomou como fonte principal para
a redação de Macunaíma a obra Vom Roroima zum Orinoco
(Do Roraima ao Orenoco) de Theodor Koch-Grünberg, publicada, em cinco
volumes, entre 1916 e 1924. Graças ao monumental trabalho de Manuel
Cavalcanti Proença, Roteiro de Macunaíma, podemos acompanhar
como o escritor paulista foi reelaborando as narrativas colhidas na obra do
alemão, mesclando-a a outras fontes, como livros de Capistrano de Abreu,
Couto Magalhães, Pereira da Costa ou mesmo relatos orais, como o que
o grande compositor Pixinguinha lhe fez de uma cerimônia de macumba,
para ir tecendo sua rapsódia.
Nas lendas de heróis taulipang e arecuná, apresentadas por Koch-Grünberg,
Mário de Andrade encontrou o herói Macunaíma, que, segundo
o estudioso alemão, “ainda era menino, porém mais safado
que todos os outros irmãos.”
Nas palavras do poeta-crítico Haroldo de Campos:
“
O próprio Koch-Grünberg, em sua “Introdução” ao
volume, ressalta a ambigüidade do herói, dotado de poderes de criação
e transformação, nutridor por excelência, ao mesmo tempo,
todavia, malicioso e pérfido. Segundo o etnógrafo alemão,
o nome do supremo herói tribal parece conter como parte essencial a
palavra MAKU, que significa “mau” e o sufixo IMA, “grande”.
Assim, Macunaíma significaria “O Grande Mau”, nome – observa
Grünberg – “que calha perfeitamente com o caráter intrigante
e funesto do herói”. Por outro lado, os poderes criativos de Macunaíma
levaram os missionários ingleses em suas traduções da
Bíblia para a língua indígena a denominar o Deus cristão
pelo nome do contraditório herói tribal, decisão que Koch-Grünberg
comenta criticamente”.
O herói sem nenhum caráter
Foi, portanto, na obra do etnólogo alemão que Mário de
Andrade, paradoxal e muito antropofagicamente, encontrou a essência do
brasileiro. O próprio autor de Macunaíma, em prefácio
que nunca chegou a publicar com o livro, nos conta como ocorreu a descoberta:
“O que me interessou por Macunaíma foi incontestavelmente a preocupação
em que vivo de trabalhar e descobrir o mais que possa a entidade nacional dos
brasileiros. Ora depois de pelejar muito verifiquei uma coisa que me parece
certa: o brasileiro não tem caráter. Pode ser que alguém
já tenha falado isso antes de mim porém a minha conclusão é uma
novidade para mim porque tirada da minha experiência pessoal. E com a
palavra caráter não determino apenas uma realidade moral não,
em vez entendo a entidade psíquica permanente, se manifestando por tudo,
nos costumes na ação exterior no sentimento na língua
na História na andadura, tanto no bem como no mal. O brasileiro não
tem caráter porque não possui nem civilização própria
nem consciência tradicional.
Os franceses têm caráter e assim os jorubas e os mexicanos. Seja
porque civilização própria, perigo iminente, ou consciência
de séculos tenham auxiliado, o certo é que esses uns têm
caráter. Brasileiro não. Está que nem o rapaz de vinte
anos: a gente mais ou menos pode perceber tendências gerais, mas ainda
não é tempo de afirmar coisa nenhuma. […] Pois quando matutava
nessas coisas topei com Macunaíma no alemão de Koch-Grünberg.
E Macunaíma é um herói surpreendentemente sem caráter.
(Gozei)”
As metamorfoses pelas quais passa a personagem, de sabor surrealista, podem
muito bem ser associadas à sua “falta de caráter”,
assim como o fascínio que revela pela “língua de Camões”,
na Carta pras Icamiabas.
Foco Narrativo
Embora predomine o foco da 3a pessoa, Mário de Andrade inova utilizando
a técnica cinematográfica de cortes bruscos no discurso do narrador,
interrompendo-o para dar vez à fala dos personagens, principalmente
Macunaíma. Esta técnica imprime velocidade, simultaneidade e
continuidade à narrativa. Exemplo:
“
Lá chegado ajuntou os vizinhos, criados a patroa cunhãs datilógrafos
estudantes empregados-públicos, muitos empregados-públicos! Todos
esses vizinhos e contou pra eles que tinha ido caçar na feira do Arouche
e matara dois…
-…mateiros, não eram viados mateiros, não, dois viados
catingueiros que comi com os manos. Até vinha trazendo um naco pra vocês
mas porém escorreguei na esquina, caí derrubei o embrulho e o
cachorro comeu tudo.”
(Cap. XI – A Velha Ceiuci)
Espaço e tempo
As estripulias sucessivas de Macunaíma são vividas num espaço
mágico, próprio da atmosfera fantástica e maravilhosa
em que se desenvolve a narrativa. Em seu Roteiro de Macunaíma, mestre
Cavalcanti Proença afirma que Macunaíma se aproxima da epopéia
medieval, pois “tem de comum com aqueles heróis a sobre-humanidade
e o maravilhoso. Está fora do espaço e do tempo. Por esse motivo
pode realizar aquelas fugas espetaculares e assombrosas em que, da capital
de São Paulo foge para a Ponta do Calabouço, no Rio, e logo já está em
Guarajá-Mirim, nas fronteiras de Mato Grosso e Amazonas para, em seguida,
chupar manga-jasmim em Itamaracá de Pernambuco, tomar leite de vaca
zebu em Barbacena, Minas Gerais, decifrar litóglifos na Serra do Espírito
Santo e finalmente se esconder no oco de um formigueiro, na Ilha do Bananal,
em Goiás”.
Macunaíma é um personagem outsider, enquanto marginal, anti-herói,
fora-da-lei, na medida em que se contrapõe a uma sociedade moderna,
organizada em um sistema racional, frio e tecnológico. Assim, o tempo é totalmente
subvertido na narrativa. O herói do presente entra em contato com figuras
do passado, estabelecendo-se um curioso “diálogo com os mortos”:
Macunaíma fala com João Ramalho (séc. XVI), com os holandeses
(séc. XVII), com Hércules Florence (séc. XIX) e com Delmiro
Gouveia (pioneiro da usina hidrelétrica de Paulo Afonso e industrial
nordestino que criou a primeira fábrica nacional de linhas de costura).
Enumerações e Desregionalização
Chama a atenção do leitor atento, em Macunaíma, a abundância
de enumerações.
Já na primeira página do romance encontramos a enumeração
das danças tribais: “freqüentava com aplicação
a murua a poracê o torê o bacorocô a cucuicogue, todas essas
danças religiosas da tribo.”
Tais listas colocam em evidência o trabalho de pesquisa de Mário
de Andrade, que nelas freqüentemente mistura elementos de diversas regiões
do país, ao buscar desregionalizar sua obra, procurando “conceber
literariamente o Brasil como entidade homogênea – um conceito étnico
nacional e geográfico”. A grande estudiosa da obra de Mário,
Telê Porto Ancona Lopez, resume bem o problema:
“
Mário de Andrade realizava em suas leituras, pesquisa de palavras, termos
e expressões características dos diversos recantos do Brasil.
Grifava e recolhia. Depois os empregava, nos conjuntos os mais heterogêneos,
procurando anular as especificações do regional, e dar uma visão
geral de Brasil (…). É pois, graças à coleta de
palavras que Mário de Andrade desenvolve, que Macunaíma pode
apresentar tão freqüentes enumerações de aves, peixes,
insetos ou frutas. Essas enumerações, além de válidas
para a quebra do regionalismo, contribuem para a criação de ritmo
de embolada, alternando sílabas longas e breves, no trecho em que se
inserem. Ritmo procurado, aliás, porque o autor não usa vírgulas.”
É
importante ressaltar que tais listagens não devem afastar o leitor,
que muitas vezes se assusta com tantos nomes “estranhos”. Eles
precedem sempre uma definição generalizadora como “todas
essas danças religiosas da tribo”. Assim, o leitor não
deve se apavorar com a nomenclatura desconhecida e pode deixar a leitura fluir,
sem necessariamente recorrer ao dicionário para verificar todos os termos – mesmo
porque não vai encontrar a maioria deles.
A Carta pras Icamiabas
Precisamente no meio da narrativa, no Capítulo IX da obra, encontramos
um “Intermezzo”, como o chamava o autor. Trata-se da “Carta
pras Icamiabas”, sátira feroz ao beletrismo parnasiano da época.
Macunaíma escreve a suas súditas para descrever-lhes a cidade
de “São Paulo construída sobre sete colinas, à feição
tradicional de Roma, a cidade cesárea, “capita” da Latinidade
de que provimos". Mário de Andrade inverte, aqui, portanto, os
relatos dos cronistas quinhentistas, como Pero Vaz de Caminha, Gabriel Soares
de Sousa ou Pero de Magalhães Gandavo. Agora é o índio
que descreve a terra desconhecida para seus pares distantes. Sem caráter,
Macunaíma o faz tomando emprestada a linguagem rebuscada de um Rui Barbosa
ou de um Coelho Neto. A paródia torna-se hilariante devido aos erros
grosseiros cometidos pelo falso erudito , que escreve asneiras como “testículos
da Bíblia” por “versículos”ou “ciência
fescenina” por “feminina”.
Com seu estilo pomposo, Macunaíma enuncia, na Carta pras Icamiabas,
o slogan que irá adotar para definir os problemas do Brasil:
“
Tudo vai num descalabro sem comedimento, estamos corroídos pelo morbo
e pelos miriápodes! Em breve seremos novamente uma colônia da
Inglaterra ou da América do Norte!... Por isso e para eterna lembrança
destes paulistas, que são a única gente útil do país,
e por isso chamados de Locomotivas, nos demos ao trabalho de metrificarmos
um dístico, em que se encerram os segredos de tanta desgraça:
"POUCA SAÚDE E MUITA SAÚVA,
OS MALES DO BRASIL SÃO."
Este dístico é que houvemos por bem escrevermos no livro de
Visitantes Ilustres do Instituto Butantã, quando foi da nossa visita
a este estabelecimento famoso na Europa."
O slogan recupera conhecido poema de Gregório de Matos (1636-1695),
em que o poeta satírico baiano enumera as vilezas do país, terminando
cada estrofe com o irônico refrão: “Milagres do Brasil são.” Remete,
também, à frase do cronista Saint-Hilaire: “Ou o Brasil
acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil”.
  
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