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Libertinagem - Manuel Bandeira
A obra de Manuel Bandeira é abrangente na temática e no aspecto
formal: percorrem-na os assuntos do cotidiano, o prosaico, ao lado dos grandes
temas tradicionais da poesia, como o amor, a saudade, a solidão, a infância,
a família, a morte - esta, uma constante. Cultivou as formas fixas do
Parnasianismo crepuscular e também fez experiências com o Concretismo.
Não quis participar diretamente da Semana de Arte Moderna de 1922, mas
a declamação de seu poema "Os sapos", uma clara crítica à poesia
parnasiana, causou furor. Fez grandes amigos entre os modernistas e manteve
com eles vasta correspondência.
Personalista, sua poesia assemelha-se a uma espécie de diário íntimo
em que os acontecimentos do mundo se refletem nas imagens da vida íntima
e pessoal, como se a expressão poética resultasse da soma entre
a confidência e a notação exterior, a contemplação
da realidade, numa atitude de estranheza do poeta em relação
ao mundo. Surge aí a força humanizadora de sua poesia, marcada
por intensa paixão pela vida e por ardente ternura. Tal atitude não
pressupõe o sentimentalismo fácil; ao contrário, deplora-o
através do despojamento, da simplicidade e da reflexão. Reveste-a
o tom irônico e tantas vezes amargo de seus poemas, em que se destacam
ainda temas como o tédio, a melancolia; o amor, o erotismo; a solidão,
a angústia existencial; o popular e o folclórico; a fuga do espaço,
o escapismo -"Vou-me embora pra Pasárgada / Lá sou amigo
do rei"...
Libertinagem foi publicado em 1930 e contém trinta e oito poemas escritos
entre 1924 e 1930; na maioria deles, podemos observar a intenção
do poeta de romper com as formas tradicionais, acadêmicas e passadistas.
Esta tem sido considerada a obra mais vanguardista de Manuel Bandeira, aquela
em ele praticou mais livremente a própria liberdade formal, valendo-se
de versos e estrofação irregulares e abandonando a rima, além
de empregar largamente o coloquial, numa atitude inequivocamente antiformalista.
Exemplos claros são "Poética", verdadeira profissão
de fé modernista, e "Poema Tirado de Uma Notícia de Jornal":
POÉTICA
Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
[protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
o
[cunho vernáculo de um vocábulo
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante
[exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de
[agradar às mulheres etc.
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare
- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
POEMA TIRADO DE UMA NOTÍCIA DE JORNAL
João Gostoso era carregador da feira-livre e morava no morro da Babilônia
num
[num barracão sem número
Uma noite ele chegou no Bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.
O lirismo puro, singelo também está presente no livro, no tom
de confidência e nas recordações da infância, da
família e de pessoas queridas, e geralmente expresso na mesma linguagem
coloquial:
O IMPOSSÍVEL CARINHO
Escuta, eu não quero contar-te o meu desejo
Quero apenas contar-te a minha ternura
Ah se em troca de tanta felicidade que me dás
Eu te pudesse repor
- Eu soubesse repor -
No coração despedaçado
As mais puras alegrias de tua infância!
MADRIGAL TÃO ENGRAÇADINHO
Teresa, você é a coisa mais bonita que eu vi até hoje
na minha vida, inclusive o porquinho-da-índia que me deram quando eu
tinha seis anos.
IRENE NO CÉU
Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.
Imagino Irene entrando no céu:
- Licença, meu branco!
E São Pedro, bonachão:
- Entra, Irene, você não precisa pedir licença.
A presença da morte - a "iniludível" - que marcou
toda a sua vida - a "que podia ter sido e que não foi" - colabora
para acentuar o tom de melancolia que o eu poético tenta inutilmente
disfarçar, misturando-o ao tom de pastiche:
PNEUMOTÓRAX
Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido que não foi.
Tosse, tosse, tosse.
Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
- Respire.
.............................................................................................
- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o
[pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.
ANDORINHA
Andorinha lá fora está dizendo:
- "Passei o dia à toa, à toa!"
Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa, à toa...
A marca da (auto)ironia mantém-se até o final do livro e coincide
com o exercício metalingüístico do poeta, ao expressar o
que deseja de seu último poema:
O ÚLTIMO POEMA
Assim eu quereria o meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.
  
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