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Humor e Ironias de Bernardo Guimarães - Bernardo Guimarães
Bernardo Joaquim da Silva Guimarães é autor engajado no romantismo.
Sua obra é superlativa na expressão das emoções
e na exposição das sensações. Alguns dos críticos
literários vêem estas características como defeito: os
modernistas, por exemplo, usaram A escrava Isaura, seu romance mais conhecido,
para caricaturar a estética romântica e lançar o movimento
de renovação das artes. Outros estudiosos, ao contrário,
o situam entre os mais qualificados escritores brasileiros, um autor certamente
envolvido com a dicção e a temática de seu tempo, mas
consciente das implicações e conseqüências daquele
modelo poético e, portanto, capacitado a oferecer uma obra original
e crítica.
Esta pequena antologia pretende mostrar exatamente este duplo aspecto quando
reúne versos nos quais o humor e a ironia se destacam. Ambos, humor
e ironia, categorias literárias da maior importância para o romantismo,
que foram exploradas no extremo de sua sutileza por nosso poeta.
Em algumas composições, veremos o humor brincando com as palavras
e aliviando as tensões que inspiram a atividade poética, seja
imaginando as conseqüências da pseudo-inabilidade do autor na exaltação
de uma delicada parte do corpo da amada, como no caso de:
Pois se meu nariz é trombeta?
.../Oh! não mais, Sr. poeta,/
Com meu nariz s'intrometa (O nariz perante os poetas, estrofe 23), seja na
crítica ao esquisito nome de uma povoação, que produz
a pergunta:
Se na sagrada escritura/
Já encontrou, por ventura,
/Um deus que tivesse madre?
(Parecer da comissão de estatística a respeito da Freguesia de
Madre-de-Deus-do-Angu,
Ou, ainda, quando exercita o mais puro mundanismo e propagandeia os prazeres
proporcionados pelo cigarro e pelo charuto, exaltando as suas qualidades terapêuticas
e eróticas - uma posição que naquele tempo não
estava comprometida pela discussão que hoje se trava quanto aos males
causados à saúde pelo fumo.
Em outros poemas será possível encontrar a ironia no seu estado
mais elaborado, produzida entre o recalque e a censura de gestos e sentimentos,
recheada de significações e, portanto, pronta para causar estranhamento
e emoção quando menos se esperar. Este efeito pode ser visto
na paródia a Lembranças do nosso amor, de Aureliano Lessa. Os
versos bernardinos estão cheios de imagens grosseiras - berros da vaca
do mar, mulher desejada comendo marmelada... Um contraste com o que se poderia
esperar das indicações do título que, em sua epifania
amorosa, alegre ou triste, não vem ao caso, seria habitualmente saudada
com palavras delicadas e sentimentais. Ao final do poema, entretanto, o sujeito
poético não resiste, sua linguagem escrachada não consegue
esconder a triste expressão de saudade e ele se mostra agradecido ao
anjo da morte que afoga por amizade, Lembranças do nosso amor! (Lembranças
do nosso amor, revelando que a dureza das imagens escolhidas, na verdade, tentavam
manter secreto o mais romântico estado d'alma.
Se O devanear de um céptico (que pode ser encontrado em verbete próprio
desta Biblioteca Virtual) é considerado uma espécie de síntese
do romantismo por Manuel Bandeira, na medida em que estabelece um diálogo
direto com a poesia de seus contemporâneos mais famosos, o mesmo se poderia
dizer com respeito à Dilúvio de papel, também apresentado
aqui. Leia-se o prefácio da segunda parte da Lira dos vinte anos, de Álvares
de Azevedo e a defesa da ironia feita ali. Leia-se, em seguida, alguns dos
seus poemas, como, por exemplo, Editor,
É
ela! É ela! É ela! e Minha desgraça (todos existentes
em nosso catálogo digitalizado) e se note a mesma dicção,
o mesmo desespero e a mesma relação com as coisas do mundo pretendida
pelos dois autores. Embora a temática não seja necessariamente
a mesma, o traço que os aproxima é o da fina ironia, que não
deixa o poeta esquecer a importância da fidelidade à musa inspiradora,
esteja metaforizada numa reles lavadeira ou numa imagem etérea que visita
a redação de jornal onde trabalha, como jornalista, o poeta envergonhado.
O método para fixar os textos ora apresentados foi o da comparação
entre diversas edições, tendo em vista a preocupação
em trazer ao conhecimento do leitor virtual o que seriam os desejos do escritor.
Com este objetivo, buscamos as primeiras edições de cada poema.
Foram consultadas Poesias, de 1865, Folhas de outono, de 1883, ambas editadas
pela Garnier, e a antologia preparada por Alphonsus de Guimaraens Filho, para
o Instituto Nacional do Livro, em 1959. A pesquisa de José M. Vaz Pinto
Coelho, Poesias e romances do dr. Bernardo de Guimarães, de 1885, serviu
especialmente como texto de referência para os acontecimentos e circunstâncias
da vida e do trabalho do nosso poeta.
  
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