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História do Brasil - Murilo Mendes
Um dos seus primeiros livros, História do Brasil, publicado em 1933,
filia-se à corrente modernista; nele predomina a linguagem coloquial,
o humor e a crítica às convenções, ou seja, o humor
e a ironia é usado como instrumento crítico. Esse realmente é o
tom dos poemas que herdam algumas características da primeira fase do
Modernismo.
Nesta obra, Murilo Mendes revelou um posicionamento ao mesmo tempo satírico
e laudatório dos fatos do Brasil, com o estilo intencionalmente chocante
de uma linguagem coloquial e que não dispensa a retórica ufanista.
São os poemas-piadas, criados anos antes por Mário e Oswald de
Andrade, pequenos versos que se constituem em um lema nacional, como em Homo
brasiliensis:
O homem
É o único animal que joga no bicho.
A História do Brasil trata de um espaço de subversão,
da transgressão, de uma face brasileira típica de sua picardia,
e o poeta contribui para a estética da malandragem brasileira.
Mais do que uma incursão “inquietante” aos fatos da história
pátria, por puro entusiasmo juvenil, sem nenhuma qualidade salvo o humor,
História do Brasil parece representar essa “impaciência” ante
a visão oficial da historiografia brasileira sobre a formação
do País, cultivando uma espécie de poesia cujo caminho já fora
aberto por Oswald de Andrade, sem, contudo, reproduzir o ponto de vista aderido
ao pensamento burguês que este contraditoriamente queria denunciar.
Murilo Mendes renegou a vida toda essa obra, principalmente ao organizar uma
coletânea, publicada em 1959. No prefácio daquela edição,
ele escreveu que aquelas poesias "destoam do conjunto da minha obra: sua
publicação aqui desequilibraria o livro.
O primeiro poema de História do Brasil, é Prefácio de
Pinzón, em que o desbravador espanhol se queixa de que a fama da descoberta
da “fazenda” ficou com os portugueses, por que os espanhóis “não
tínhamos jornal” e não puderam comprar o jornalista para
anunciar o feito, como fizeram seus rivais.
Pode-se perceber o sentido satírico dado à carta de Caminha,
como notícia de uma apropriação indébita, e o descaso
para com a própria história, na alegoria dos Pitangueira, que
vêem nos antepassados apenas fonte de renda. Não menos importante é o
fato de que os próprios retratos, buscando recuperar a dignidade das
molduras, servem apenas de motivos de folia. A história do Brasil, vista
desses dois extremos, não passa de uma série de trampolinagens
dos portugueses e de seus sucessores no poder.
Mas a atitude satírica é atenuada quando se trata da história
dos oprimidos. Começando pelo poema 1500, nota-se que as simpatias do
narrador poético estão com os índios. Misturando o Rio
de 1930, com seus carros e maiôs, com os primeiros habitantes índios,
esse texto imagina que um indiozinho, nascido de uma índia embalada
por um lundu em meio às ondas, expulsa Pedro Álvares Cabral com
uma flechada de volta para Lisboa, com a frase “Sai, azar!”.
Nesse conjunto, que acompanha o desenrolar da colonização, da
constituição do império brasileiro, da implantação
da república velha até a reviravolta de 30, destacam-se pelo
enfoque positivo os episódios dedicados àqueles heróis
oriundos das classes populares, sejam eles defensores de uma idéia de
Brasil independente ou não tiranizado ou simplesmente menos injusto.
Com a exceção de Tiradentes, cujo heroísmo é alvo
de certa zombaria, todos são vistos com benevolência, recebendo
um tratamento entre respeitoso e folgazão.
Os fatos relacionados com o governo, entretanto, têm o espaço
que lhes é cedido ocupado pela sátira impiedosa. A Revolução
de 30 é vista como “um pic-nic com carabinas”, com o bicho-papão
posto abaixo pelo cardeal, fugindo para a Suíça e indo “arejar
o cavaignac”.
Além desses poemas diretamente referidos a fatos históricos,
em que os governantes são representados em situações ridículas,
há uma série dedicada a entranhados costumes nacionais: o ceticismo
do povo quanto ao governo, o exército vaidoso em suas farpelas, que
não quer nada com a guerra; as campanhas educacionais governistas, em
que se constroem escolas onde não há estradas e estradas em lugares
onde não há escola; as disputas sobre a língua nacional,
em que um filólogo é assassinado com uma faca alemã, porque
incomoda o vizinho para decidir se Brasil se escreve com “s” ou “z “ e
usa a faca como possível tira-teimas; ou a filosofia do jeca.
Dessa forma, a história brasileira nesse livro de Murilo Mendes aparece
como um desfile de desmandos, matanças, com os poderosos mostrados em
momentos de vulgaridade, decidindo o destino freqüentemente sangrento
do povo, e a população levando a vida em bem-aventurança,
mesmo com tais descalabros, porque a “fazenda” é fértil,
há comida e mulatas, folia e música.
Poema escolhido: Linhas Paralelas
Um presidente resolve
Construir uma boa escola
Numa vila bem distante.
Mas ninguém vai nessa escola:
Não tem estrada pra lá.
Depois ele resolveu
Construir uma estrada boa
Numa outra vila do Estado.
Ninguém se muda pra lá
Porque lá não tem escola.
  
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