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Saturei.COM | Um jeito jovem de fazer internet
Fogo Morto- José Lins do Rego
O mestre José Amaro
José Amaro vivia de consertar sela, arreios, mexer com o couro, com
a sola. Passava o dia trabalhando em sua tenda na frente da casa _ . Muitos
eram os que passavam pela estrada e cumprimentavam-no, paravam para um conversa
rápida, ou então para pedir algum conserto, entre eles Seu Laurentino,
o pintor, Torquato, o cego, Alípio, o aguardenteiro, que mais tarde
entrou para o bando do Capitão Antônio Silvino, Vitorino, seu
compadre, e o negro José Passarinho. Alguns ele atendia com certa satisfação,
fazia até consertos de graça, mas recusava-se a atender o pessoal
do Santa Rosa, engenho do Coronel José Paulino, com quem tinha suas
diferenças. Dizia que o coronel gritava com todos e que ele não
era homem de levar grito. Sentia orgulho nessa sua atitude. Fora sempre um
homem de trato duro, áspero, mas ultimamente tinha piorado muito, estava
sempre bravo com todos, sempre com críticas, qualquer coisa que alguém
dizia ele retrucava.
Também dera para ter raiva de sua família _ . Sinhá tinha
se casado com José Amaro para não ficar moça velha, como
ia ficando sua filha, solteira e já com trinta anos. Toda a vida Sinhá passou
sem exercer sua vontade, obedecendo em tudo ao marido. A única coisa
que lhe dava motivo de viver era sua filha Marta. Defendia-a dos ataques do
marido que a cada dia que passava ia ficando mais ríspido, mais duro
no tratamento com elas _ . As atitudes destemperadas do seleiro foram também,
pouco a pouco, criando um sentimento de medo em Sinhá, percebia que
o marido estava ficando diferente, ensimesmado, mais agressivo, distante. E
ainda havia a história de ele ser lobisomem _ .
Sinhá cuidava da casa, da criação, mas não tinha
dado ao seleiro um filho. Ao invés disso, deu-lhe uma filha, Marta,
que por qualquer coisa chorava. Nunca tinha se casado, apesar de ser moça
estudada: sabia ler, tinha letra bonita, bordava e costurava. Não era
moça feia, outras menos bonitas tinham conseguido marido. Agora com
trinta anos dera para chorar baixinho o dia todo, tinha uma aflição
que a comia por dentro _ . Um dia Marta teve uma crise, foi encontrada deitada
no chão da sala, grunhindo. Por algum tempo depois da crise parecia
que estava melhor, mais animada, até que um dia saiu da casa gritando
e rindo sem parar. José Amaro pegou um pedaço de sola na mão
e deu uma surra em Marta. A partir de então, Marta começou a
falar coisas sem sentido e a dar risadas medonhas. Tinha endoidado de vez.
A angústia com a vida que José Amaro levava foi aumentando e
num ímpeto de tentar aliviá-la, o mestre começou a dar
uns passeios pela redondeza à noite. Isto e mais sua aparência
descuidada, sua pele amarelada pelo trabalho com o couro motivaram o falatório
do povo e alimentaram a crença em que José Amaro tinha se transformado
em lobisomem.
O sofrimento de José Amaro só era amenizado pelas histórias
do bando do Capitão Antônio Silvino, que enfrentava as tropas
do Tenente Maurício e os coronéis de engenho a favor dos pobres
_ . Alípio é quem trazia as notícias da movimentação
do bando, e começou a pedir a ajuda do mestre para arranjar provisões
para o bando e para saber onde andava o tenente. Isso deu ao mestre um sentimento
de utilidade, de orgulho, agora ele tinha um novo motivo para viver _ _ .
Mestre Amaro vivia no engenho Santa Fé desde os tempo em que o Capitão
Tomás era o proprietário _ . Depois da morte do Capitão
Tomás, seu genro, Coronel Luís César de Holanda Chacom é quem
passou a tomar conta do Santa Fé _ .
Coronel Lula de Holanda passava sempre pela porta de mestre José Amaro
com seu cabriolé. José Amaro gostava de ver o cabriolé enchendo
a estrada, com seus cavalos, suas lamparinas, suas campainhas. Só não
gostava da soberba do coronel. Não era homem de andar a pé pelo
engenho, não gostava de tomar conta da propriedade, que a cada dia estava
mais abandonada. Não era como no tempo do Capitão Tomás.
Entre sua criadagem tinha o negro Floripes, que o Coronel Lula apadrinhou.
Fazia questão que o negro acompanhasse as rezas da família todo
final de tarde.
Aproveitando-se da doença do Coronel e da estima que este lhe tinha,
Floripes inventou uma intriga a respeito de José Amaro. Isto porque
o seleiro não gostou de um recado que o coronel havia mandado pelo negro
e enxotou-o de sua casa _ . O Coronel mandou chamar o mestre e pediu para ele
sair de suas terras. No dia seguinte, Sinhá, ajudada pelo compadre Vitorino,
levou Marta para um hospital no Recife _ . O mestre sentiu um enorme vazio,
medo de voltar para casa, e, debaixo de uma pitombeira, abaixou a cabeça
e chorou.
O engenho do Seu Lula
"
O Capitão Tomás Cabral de Melo chegara do Ingá do Bacamarte
para a Várzea do Paraíba, antes da revolução de
1848, trazendo muito gado, escravos, família e aderentes." Comprou
umas terras perto do Santa Rosa e se instalara ali. Era homem trabalhador,
ele mesmo, junto com seus homens, foi levantando o Santa Fé. No começo,
não sabia nada de açúcar, criava gado, plantava algodão.
Mas era homem obstinado, levantou o engenho, comprou o que foi necessário
para dar início à produção e dois anos depois colhia
sua primeira safra. O povo, que não tinha botado fé naquele camumbembe,
via com espanto o engenho crescer, tomar corpo. Depois de algum tempo, o Santa
Fé produzia mais que outros engenhos de mais recursos.
Diziam que os negros do Santa Fé eram maltratados, que recebiam castigos
tremendos. "Negro no Santa Fé era de verdade besta de carga." Sua
escravatura não participava das festas do Pilar, "não vivia
no coco como a do Santa Rosa." O capitão achava que negro tinha
nascido para o trabalho e, mesmo ele, que não era negro, trabalhava
de sol a sol. O resultado disso é que o Santa Fé era um engenho
triste _ .
Quando a filha Amélia voltou dos estudos no Recife, mandou buscar um
piano. Este fato foi motivo de festa para o povo, que nunca tinha visto um
piano de cauda, maior que todos da região. Mais de dez negros trouxeram
o piano na cabeça pela estrada e o capitão vinha atrás
dando ordens. Neste mesmo ano o Capitão Tomás mandou pintar a
casa-grande e registrou o ano de 1850 no frontão da casa _ .
Nos finais das tardes de domingo, o prazer do capitão era ouvir sua
filha tocar valsas. A mulher, cansada dos trabalhos da cozinha, com as mãos
grossas de debulhar milho para negro, enchia-se de alegria. D. Amélia
tocava suas varsovianas com alma. Aquele era um momento especial no Santa Fé.
Pai, mãe e a escravatura experimentavam uma existência muito diferente
dos dias normais, embalados pela música _ .
O capitão estava no auge de sua vida, com o engenho produzindo como
nunca, tinha voz de comando no Partido Liberal, era respeitado por todos. Mas
o fato de sua filha mais velha , tão prendada, educada no Recife, não
ter se casado enchia o coração do velho de tristeza. Ali na Ribeira
não havia homem para ela. Queria homem educado, de bons modos, que a
tratasse bem. Até que apareceu, vindo de Pernambuco, o primo Luís
César de Holanda Chacom. Homem de boa aparência, educado. O Capitão
Tomás gostou logo do rapaz e foi-lhe chamando de Lula. D. Amélia
também se engraçou dele, e as varsovianas passaram a ter mais
sentimento. Entretanto, tempos depois o rapaz foi em viagem para o Recife,
sem fazer o pedido tão esperado, e o silêncio reinou naquela casa.
Ao mesmo tempo, chegaram notícias do Recife sobre Olívia, a filha
mais nova do Capitão Tomás, dizendo que ela se encontrava com
uma doença de difícil cura _ . Foi com muita tristeza que o capitão
foi visitá-la. Não pôde trazê-la para casa como queria.
Voltou para o Santa Fé completamente abalado, era outro homem. Passados
meses, todos na casa já tinham se conformado com a doença de
Olívia, menos ele. Ia de dois em dois meses visitar a filha e quando
voltava não falava com ninguém. Sofria calado, abandonou o Partido
Liberal, não tinha mais gosto pelo trabalho, ficava horas deitado no
marquesão da sala. Nem sua filha Amélia conseguia tirar o pai
daquele estado _ . Até que um moleque escravo fugiu. O Capitão
levantou-se atrás do negro fujão, voltou com ele e mandou dar-lhe
um corretivo. Um outro fato que o ajudou a sair daquele estado foi a chegada
de uma carta do Recife, com o pedido de casamento do primo Lula.
O Capitão Tomás quis que sua filha continuasse morando no engenho
com o marido. Entretanto, conforme o tempo ia passando, o capitão notou
com tristeza que o genro não tinha o menor interesse pelo engenho. Tentou
de todas as maneiras motivar o primo Lula, mas este só andava engravatado,
vestido para visita. Assustou-se por pensar que um dia tudo aquilo seria do
marido de sua filha, e que o rapaz não tinha gosto pelo trabalho. O
que o conformava é que Lula tratava bem de sua filha, era carinhoso,
tinha boa figura, sua filha parecia feliz.
Um dia, entrou pelo Santa Fé o cabriolé de Luís César
de Holanda Chacom, vindo do Recife. Tiveram que mandar consertar os caminhos
para que o cabriolé pudesse passar. A família ia agora de carro
para a missa no Pilar, quando passavam todos olhavam com admiração.
O capitão gostou da "importância que lhe vinha de tudo" _
.
O moleque Domingos foge novamente, desta vez levando dois cavalos de sela.
Seu Lula foi junto com o Capitão Tomás atrás do negro.
Seguiram as pistas que um ou outro indicava e deram numa fazenda. O dono sentiu-se
ofendido por desconfiarem que escondia negro fugido e ladrão. Cercados
por mais dois de punhal, o capitão e o primo tiveram que engolir as
ofensas e voltaram sem Domingos. Esta situação motivou novo desânimo
no capitão. Ficou como se estivesse doente, como quando soube da doença
da filha Olívia. Durante dias ficou deitado na rede da varanda, sem ânimo
para nada. Escutava sua filha Olívia, que tinha mandado buscar, falando
coisas sem nexo. Aquilo doía-lhe a alma.
Lula tentou assumir o engenho, mas mostrou seu lado mau ao mandar castigar
um negro sem razão. D. Mariquinha, mulher do Capitão Tomás,
brigou com o genro e tomou as rédeas do engenho. Era ela quem dava as
ordens agora. O genro e a filha ficaram magoados e o Santa Fé ficou
ainda mais calado, triste. Numa tarde, no alpendre da casa, faleceu o Capitão
Tomás.
Houve briga pelo inventário. Lula fez exigências, Mariquinha não
concordou. D. Amélia, de início, foi contra o marido, mas acabou
cedendo. A partir de então, quando o povo via o Seu Lula passando de
cabriolé com a família, via um homem ambicioso, que queria roubar
a sogra. D. Amélia sofria com a situação entre sua mãe
e o marido, quis morar em outro lugar, mas Seu Lula não quis por causa
da filha _ . A menina era mimada, chorava muito à noite. D. Mariquinha
queria ajudar, a neta era a única alegria de sua vida de viúva;
entretanto, Lula fez de tudo para que a sogra não se apegasse à neta,
proibiu-a até de segurar a criança. Ela passou a detestar aquele
homem sem sentimento e só abrandou seu ódio quando a neta ficou
doente e o genro, ao contrário de todo homem que ela conhecia, cuidou
noite e dia da menina, não saía do seu lado. D. Mariquinha teve
de reconhecer que ele era um bom pai e amava aquela criança e, assim,
embora triste, conformou-se com a situação.
Depois da morte de D. Mariquinha, Lula reuniu os negros, dali para a frente
não haveria mais vadiação e todos deveriam rezar as ave-marias
das tardes _ . Nada mais de S. Cosme e S. Damião. "Aquilo era feitiçaria." Seu
Lula, agora Capitão Lula de Holanda, passava o dia na rede brincando
com a filha, lendo jornal, o feitor vinha buscar as ordens e dar conta do serviço.
Olívia andava de um lado para o outro, no seu mundo particular e Amélia
assumiu o lugar da mãe na cozinha.
O Capitão Lula tratava mal seus negros, castigava-os por qualquer coisa,
deixava-os à míngua. O feitor é que levava adiante o engenho
como podia. Lula só se preocupava com suas orações e com
a filha. "E o Santa Fé foi ficando assim o engenho sinistro da
várzea." Quando chegou a abolição, todos os negros
foram para outros engenhos. Só o boleeiro Macário ficou porque
tinha paixão por seu trabalho. Ninguém queria trabalhar no Santa
Fé por causa das história de tortura. O Santa Rosa acudiu o Santa
Fé, que aos poucos foi definhando, perdendo as plantações.
No dia da abolição os negros foram para a frente da casa, acenderam
fogueira, cantaram. O Capitão Lula teve medo deles invadirem a casa
e armou-se com o clavinote. Quando os negros se foram D. Amélia viu,
pela primeira vez, seu marido empalidecer e cair no sofá retorcendo-se
todo, com uma baba branca escorrendo de sua boca.
Por esses tempos, Lula e Amélia orgulhavam-se da filha Neném,
que estudava no Recife. Quando podia, a menina vinha em visita ao Santa Fé e
todos iam à missa de cabriolé, o Capitão Lula parecia
que levava uma princesa. D. Neném era moça bonita, prendada.
Era ela quem tocava o piano da casa agora. D. Amélia se ressentia da
relação pai-filha, tinha ficado de lado, isolada. Não
tinha conversa com sua filha, o marido já não dava importância
a ela desde que perdera o segundo filho.
Quando soube que sua filha estava se engraçando de um promotor do Pilar,
Lula ficou furioso. Não queria que sua filha se casasse com um camumbembe
qualquer. Gritou com a mulher, a filha trancou-se no quarto chorando. Lula
teve outro ataque. A mulher e a filha correram para ajudar. Lula passou dias
deitado no marquesão, onde antes ficava o sogro, pensando que de forma
alguma deixaria sua filha se casar com um homem de rua. Antes vê-la morta.
Fez-se silêncio novamente no Santa Fé _ .
À
s seis horas o Coronel Lula mandava Floripes tocar o sino no alpendre de trás
chamando para a reza. O moleque agora rezava na sala dos santos com a família,
tratava o Coronel com devoção. D. Amélia não gostava
da fala mansa de Floripes. Neném vivia cuidando do jardim, não
falava com ninguém, nem com o pai com quem era tão ligada _ .
O Coronel, por seu lado, passou a ignorar a filha desde o ocorrido por causa
do promotor.
O Coronel Lula parecia não ver o que estava ocorrendo no Santa Fé.
Só D. Amélia sabia da condição de ruína
do engenho. Mal havia comida que desse para eles. Ela passou a vender ovos
para a Paraíba, escondida do marido. Mas continuavam indo à missa
do Pilar de cabriolé. D. Neném e D. Amélia colocavam as
jóias ganhas no tempo de riqueza e que o coronel fazia questão
que elas usassem.
Numa noite apareceram uns safados cortando caixão na frente da casa
do Coronel Lula, que saiu de clavinote, xingando todo mundo. Teve novo ataque,
D. Amélia socorreu sozinha, a filha chorava no quarto. A doença
de Lula parecia irreversível e a decadência do Santa Fé era
completa _ _ .
O Capitão Vitorino
Uma noite Antônio Silvino atacou o Pilar, "soltaram os presos, cortaram
os fios do telégrafo da estrada de ferro e foram à casa do prefeito
Napoleão para arrasá-lo." Entre outras coisas, pegou dois
caixões cheios de moedas e abriu-os no meio da rua para o povo se servir à vontade.
No dia seguinte, José Amaro soube que o grupo de Antônio Silvino
havia arrasado a vila. Ficara feliz com o ataque dos cangaceiros. Capitão
Silvino era o seu herói, fazia o que ele não tinha coragem para
fazer _ .
Havia uma semana que o Coronel Lula tinha mandado que ele saísse de
suas terras. Sua mulher foi passar uns dias na casa da comadre Adriana. José Amaro
sabia que ela não queria mais vê-lo, aquilo era desculpa. Sentia-se
muito só. Nunca pensou que ligasse para sua casa, para as árvores,
para o chiqueiro, para as flores. José Passarinho é quem cuidava
dele, fazia comida. Todos os outros estavam contra ele: sua mulher, o Coronel
Lula e aquele povo, que agora tinha medo dele, desviavam-se de seu encontro,
olhavam-no com suspeita. De onde tinham tirado aquela idéia de ele ser
lobisomem?
Apareceu Vitorino na casa do mestre. O Capitão Vitorino Carneiro da
Cunha, casado com D. Adriana, era compadre de José Amaro. Sempre foi
considerado uma pessoa desprezível, todos chamavam-no Papa-Rabo, por
acharem que ele só andava atrás dos grandes. Por várias
vezes é abordado por pessoas que têm prazer em xingá-lo,
provocá-lo. Por seu lado Vitorino, gosta de contar vantagem, de se fazer
de valentão. No fundo é "uma criança de cabelos brancos".
Fala o que pensa, provoca os outros com sua conversa, mostra ter influência
junto às pessoas importantes _ . Quando implica com alguém, puxa
para briga, diz desaforos. Mas ninguém o leva a sério. Riem dele. É o
bobo do lugar. Um Dom Quixote do sertão _ .
Sua mulher sofre com seus desatinos, com a vida de ir para lá e para
cá sem nada fazer, sem trazer dinheiro para casa. Ela é quem
sustenta a família, castrando frangos para as fazendas vizinhas, era
a única que tinha ciência dessa arte por ali. Era muito amiga
de Sinhá e por diversas vezes ajudou-a com a filha Marta _ .
O seleiro também tem desprezo pelo compadre. Acha-o um fraco, incapaz
de acabar com aquela história de xingamentos, de se fazer respeitar.
Vitorino também não tem muita consideração pelo
mestre devido ao fato de ser seleiro, um trabalho pouco respeitado por Vitorino.
Na última parte da narrativa, Vitorino aparece na casa do mestre com
sua burra velha. Agora, depois de tudo que aconteceu em sua vida, o mestre
teve prazer na visita do amigo. Vitorino fala das eleições, está no
partido de Rego Barros, tenta convencer o mestre a votar em seu partido, diz
que tudo vai mudar, que os coronéis não vão mais fazer
o que querem por ali. O mestre não fala mas já se decidiu a votar
em Antônio Silvino. Vitorino se propõem a ajudar o mestre na questão
com o Coronel Lula. _ . Na estrada, o Capitão Vitorino sofre xingamento
de um moleque e, pela primeira vez pegou o menino e quase lhe partiu a cabeça
_ .
Capitão Silvino tomou o partido do mestre José Amaro na questão
com o Coronel Lula _ . Enviou uma carta ao Santa Fé, mandando dizer
que era para o coronel deixar José Amaro em paz nas suas terras. Para
surpresa de D. Amélia, o coronel mostrou-se calmo com a notícia.
Lula procurou ajuda no Santa Rosa, mas ninguém queria se meter com Antônio
Silvino. Mesmo assim, insistiu e deu prazo de três dias para o mestre
abandonar o lugar.
Vitorino chegou ao Santa Fé para falar de política com seu primo,
o coronel. Lula ouviu calado e depois deu uma resposta malcriada. Vitorino
se ofendeu, mas entrou na conversa sobre a expulsão do mestre. Os dois
discutiram, o coronel pôs Vitorino para fora de sua casa e teve outro
ataque.
Indo de madrugada para o Pilar com o intuito de defender seu amigo seleiro,
Vitorino encontrou o Tenente Maurício que perguntou se o outro tinha
alguma notícia do bando de Antônio Silvino. Vitorino respondeu
duvidando da capacidade do tenente em pegar o bando. Eles discutiram, Vitorino
enfrentou o tenente e foi preso, com a testa sangrando _ . O primo José Paulino,
o juiz municipal, Dr. Samuel e outros senhores de engenho vieram em auxílio
de Vitorino, contra o tenente, que não arredou pé de sua decisão.
A partir disso, Vitorino passou a ser olhado com outros olhos pelo povo, como
homem cheio de coragem, que não tinha medo de nada nem de ninguém.
Correu a notícia pelo estado de que o ocorrido era por questões
políticas. Vitorino era contra o governo, a favor do candidato Rego
Barros. O Coronel Rego Barros mandou telegrama congratulando Vitorino por enfrentar
a oposição.
O filho de Vitorino, Luís, chegou na Paraíba. Havia algum tempo,
a mãe Adriana fez de tudo para enviar seu filho para a Marinha, queria
que tivesse vida diferente do pai, longe dali evitaria que o filho sofresse
humilhação pelos desatinos de Vitorino. Agora ele voltava como
suboficial da Armada. Vitorino estava orgulhoso de apresentá-lo a todos.
Era um homem diferente, não gritavam mais Papa-Rabo para ele. Luís
queria que os pais fossem morar com ele no Rio. Vitorino, porém, se
recusou, dizendo que sua vida estava ali naquele lugar. Adriana, entretanto,
sentiu que aquele poderia ser o momento de se livrar da vida incerta que tinha
com o marido.
O Capitão Antônio Silvino invadiu o Santa Fé. Amarraram
o Floripes, que chorava de medo. O Capitão tinha ouvido as histórias
sobre as moedas de ouro que o Capitão Tomás tinha deixado de
herança e queria que Lula entregasse a botija. Mal sabia ele que nos últimos
tempos o Santa Fé só sobrevivia porque o Coronel Lula ia, a cada
ano, trocando as moedas no Recife _ . Não havia mais ouro nenhum, viviam
na miséria. O Capitão não acreditou, vasculhou a casa,
viraram o piano de pernas para o ar _ . O Coronel, já muito doente,
não entendia bem o que estava acontecendo, parecia meio fora de si,
quem respondia para o capitão era D. Amélia.
Foi quando apareceu Vitorino, pedindo que parassem com aquilo. Puxou o punhal
em posição de ameaça, mas foi derrubado por uma coronhada
de rifle. O Coronel José Paulino chegou e conseguiu convencer o Capitão
Silvino de que seu vizinho não tinha dinheiro nenhum. Na sala, o Coronel
Lula tinha tido mais um dos seus ataques e estava inconsciente.
A notícia do assalto do Santa Fé correu logo. Vitorino mais uma
vez foi considerado herói. "Agora Vitorino podia dizer que furava
de punhal, que eles acreditavam."
O Tenente Maurício prendeu o cego Torquato, queria que ele revelasse
onde estava o bando dos cangaceiros. Na prisão o cego apanhou muito.
Vitorino gritava do lado de fora contra a atitude do tenente. A casa de José Amaro
foi cercada pela força policial. Sinhá tinha ido embora de vez
naquele dia, para grande tristeza do mestre, que passou o dia largado na rede.
Levaram o negro Passarinho e o mestre presos.
A sela da prisão do Pilar fedia com seus mais de dez presos. Vitorino
não se conformou com a prisão do cego, do negro e de seu compadre.
Pediu ajuda do juiz. No outro dia apresentaram-se para audiência e o
juiz deu habeas-corpus aos presos. Vitorino saiu comemorando, mas o tenente
disse que não soltaria os presos. Houve novo confronto entre Vitorino
e o Tenente. Alguns homens da tropa cercaram Vitorino e o levaram para a cadeia.
Lá, passaram-lhe o cipó-de-boi, mas Vitorino não parava
de xingar o tenente, de gritar que tudo aquilo era uma canalhice.
Quem novamente resolveu a situação foi o Coronel José Paulino,
do Santa Rosa. Adriana tratou de Vitorino. Pela primeira vez sentiu orgulho
de seu marido. Deitado no quarto, o velho Vitorino pôs-se a imaginar
o que faria quando eleito. Ia botar as coisas para funcionar direito. Todos
teriam que obedecer à lei, não haveria mais regalias para os
grandes, delegado não poderia mais fazer o que quisesse, nem estar a
mando dos coronéis. Começou a imaginar quem iria colocar neste
ou naquele cargo. Imaginou-se entrando na casa da Câmara com o povo dando
vivas a ele. "Todos ficariam contentes com o seu triunfo."
No dia seguinte, o negro Passarinho chegou correndo à casa de Vitorino.
Contou que durante a noite tinha escutado o seleiro chorar e chorou também.
De manhã encontrou o mestre perto da tenda com a faca de cortar sola
enfiada no peito.
Vitorino foi com Passarinho cuidar do defunto. Lá da estrada viram a
chaminé do Santa Rosa soltando fumaça. Da chaminé do Santa
Fé, coberta de plantas, nada saía: o engenho já não
funcionava, estava de fogo morto.
  
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