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Estrela da Vida Inteira- Manuel Bandeira
A posição entre uma natureza apaixonada que aspirava a plenitude,
e o exílio em que a doença o obrigara a viver, marcaram profundamente
a sua sensibilidade, traduzindo-se, no plano estrutural, pelo gosto das antíteses,
dos paradoxos, nos contrastes violentos; no plano emocional, por um movimento
polar, uma oscilação constante que, no decorrer da obra, vai
alternar a atitude de serenidade melancólica e o sentimento de revolta
impotente.(Gilda e Antonio Cândido de Mello e Souza - Introdução
in Estrela da vida inteira)
Pasárgada: a poesia das coisas mais simples
Neste poema o poeta evoca a vida que poderia ter sido e que não foi,
uma espécie de paraíso pessoal, lugar de sonhos e de desejos,
em que ele poderia realizar as felicidades mais simples, como andar em burro
bravo, subir em pau-de-sebo, andar de bicicleta, tomar banho de mar...
A enumeração, neste lugar ideal, de fantasias tão simples
e despojadas já revela um dado biográfico que se transformará em
fonte de muitos temas da poesia de Bandeira: a presença da morte, anunciada
em plena adolescência, sob a forma de uma tuberculose, doença
mortal na época (início do século XX). (...) fui vivendo,
morre-não-morre, e, em 1914, o doutor Bodner, médico-chefe do
Sanatório de Clavadel, tentando-lhe eu perguntado quantos anos me restariam
de vida, me respondeu assim: o senhor tem lesões teoricamente incompatíveis
com a vida: no entanto, está sem bacilos, come bem, dorme bem, não
apresenta em suma nenhuma sintoma alarmante. Pode viver cinco, dez, quinze
anos... Quem poderá dizer? Continuei esperando a morte para qualquer
momento, vivendo sempre como que provisoriamente. (Manuel Bandeira - Itinerário
de Pasárgada)
A permanente consciência da morte, a luta contra ela, a convivência
com sua presença - fazedoras de ausências - transformam-se poeticamente
numa descoberta essencial de vida, numa valorização intensa da
existência mais cotidiana, redescoberta como única, irrepetível,
insubstituível. Não é possível separar a experiência
de vida da experiência poética do autor de Pasárgada, embora
sua poesia - de uma universalidade intensa, ardente e simples - não
possa ser reduzida a acontecimentos biográficos, que se revelam matrizes
de imagens, de emoções, de ritmos, transfigurados na alquimia
da criação.
Estrela da vida inteira / Da vida que poderia / Ter sido e não foi.
Poesia, / Minha vida verdadeira.
Aos poemas de Bandeira nascem e crescem dos acontecimentos mais cotidianos,
mais comuns, dos momentos que aparentemente são banais e insignificantes.
Do dia-a-dia mia desapercebido desentranha sua poesia, em que instantes da
existência aparecem transfigurados em pura essencialidade da vida.
Detalhes prosaicos e perdidos na rotina descolorida dos dias revelam-se instantes
de iluminação, instantes de transcendência e de proximidade
da essência mais profunda - e mais simples - da vida. O grande milagre
da existência, a mais cotidiana, que a consciência da morte revelará como
algo intenso, único, irrepetível.
Sua linguagem coloquial e, despojada, atinge algum dos momentos mais expressivos
da língua: grande intensidade, grande condensação, com
imensa simplicidade. Ao lado de Carlos Drummond, Bandeira é o grande
incorporador do prosaico e do coloquial na poesia brasileira moderna.
... a poesia está em tudo - tanto nos amores como nos chinelos, tanto
nas coisas lógicas como nas disparatas.
Uma poética de iluminações da existência cotidiana,
com a mais expressiva coloquialmente, e com intensa condensação
de imagens e ritmos, a obra de Bandeira lembra muitas vezes a criação
poética dos haicais japoneses, em que se flagram instante de plenitude,
de frágil e plena percepção da vida, concentrada em um
detalhe aparentemente banal.
Ao mesmo tempo, em unidade indissociável, a obra de Bandeira representa
a mais longa convivência com a morte, de toda a poesia brasileira. Sem
ser dominado pelo desespero, sem ser possuído pelo medo, sem dramatizações
retóricas. Com amadurecida amargura. Com ironia e auto-ironia, melancólicas.
Com sofrida serenidade. Com nostalgia da vida que poderia ter sido e que não
foi e nem será.
Até mesmo com ternura pela morte, companhia constante de muitos anos,
interlocutora secreta que, paradoxalmente, revela o valor absoluto de cada
dia, de cada pessoa, de cada coisa. A sabedoria da morte - quando se descobre
que não apenas os outros morrem - transformou-se, como em muitas correntes
filosóficas, em sabedoria de vida. A importância da existência,
de cada um: simples, essencial, passageira. Milagre. E a morte, também
milagre.
Bandeira é poeta da mais intensa ternura. De ardor terno e intenso
pela vida. Uma sensibilidade moderna, não grandiloqüente. Ternura
melancólica pela infância perdida, e por seus personagens. Ternura
ardente pelo corpo. A sua poesia amorosa revela-se como ardente lírica
erótica. Poesia do corpo, de grande intensidade. Os corpos se estendem,
as almas não. Imagens eróticas que se tornam experiências
sagradas, transcendentalizadas, tal a naturalidade, o ardor e a intensidade
da ternura. O físico se funde com o onírico, terna e desconcertantemente.
Além disso, revela-se um dos mais versáteis e flexíveis
fazedores de versos do modernismo brasileiro. Suas estruturas de métrica
e de ritmo vão desde as mais libertárias experiências de
verso livre, dos fluxos mais soltos e irregulares até as estruturas
mais tradicionais, de verso em redondilhas da lírica medieval, dos versos
decassílabos clássicos e neoclássico e outros combinados
com variadas formas fixas de estrófica regular, com sonetos, canções
etc. um fazedor de versos e estrofes extremamente versátil, com raro
domínio técnico e com grande erudição, capaz de
traduzir de varias línguas e de escrever à moda de, imitando
estilos os mais diversos, da época e autores.
Manuel Bandeira é também expressivo criador de imagens, com
igual e desconcertante simplicidade. Nas constelações de imagens
dos seus poemas percebemos um movimento oposto e complementar: por um lado,
o cotidiano parece transfigurado, instante de iluminação, com
aura de símbolo transcendente, e, por outro lado, o desconhecido, o
misterioso, o onírico aparecem configurados familiarmente, tornados
próximos e confidentes, tornados íntimos do dia-a-dia.
Morto a mais de vinte anos, Bandeira continua se revelando como o mais simples
e mais despojado dos poetas do Modernismo brasileiro, como o poeta capaz de
simplicidade mais essencial e mais expressiva.
Antologia comentada
Pneumotórax
Febre, hemoptise, dispnéia, e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.
Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
-Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
- Respire.
.............................................................................................
- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão
direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.
Um dos mais conhecidos textos de Bandeira e de todo o modernismo. O tema é claramente
autobiográfico. Observe o tom coloquial e irônico, quebrado por
uma frase-síntese de grande intensidade (segundo verso) e pelo final
inesperado, desconcertante, do humor absurdo diante da morte sem remédio,
final típico de poema piada característico da poesia moderna.
Poética
Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com o livro de ponto
expediente protocolo e manifestações de apreço ao
sr. Diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no
dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobre tudo os barbarismos universais
Todas as construções sobre tudo a síntese de exceção
Todo os ritmos sobretudo os instrumentais
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo o lirismo que capitula ao que quer que seja fora
de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do
amante exemplar com cem modelos de cartas e as
diferentes maneiras de agradar às mulheres etc.
Quero antes do lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare
- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
Este texto equivale a um manifesto modernista. Metapoema, poesia que fala
de poesia. Observe que ele apresenta negações e rupturas - contra
as convenções que desfiguram a criação poética,
em especial as do academicismo parnasiano - e apresenta, por outro lado, afirmações
libertárias típicas da luta modernista (particularmente no final
do poema). Observe o título verso, frase síntese, verdadeiro
slogan do momento heróico do modernismo.
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da hora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei e bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É
outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
- Lá sou amigo do rei -
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada...
Texto-síntese da poesia de Bandeira, tanto de sua linguagem como de
sua temática da vida que podia ter sido, que precisava ter sido - e
que não foi . observe a enumeração livre dos elementos
que compõe a Pasárgada - lugar ideal, lugar de sonhos, lugar
de desejo, onde a vida é o que deveria ser. Na segunda estrofe, observe
a enumeração caótica, sem seqüência lógica,
dos elementos. Observe também a extrema simplicidade da linguagem, junto
da mais intensa expressividade.
Estrela da manhã
Eu queria a estrela da manhã
Onde está a estrela da manhã?
Meus amigos meus inimigos
Procurem a estrela da manhã
Ela desapareceu ia nua
Desapareceu com quem?
Procurem por toda à parte
Digam que sou um homem sem orgulho
Um homem que aceita tudo
Que me importa?
Eu quero a estrela da manhã
Três dias e três noite
Fui assassino e suicida
Ladrão, pulha, falsário
Virgem mal-sexuada
Atribuladora dos aflitos
Girafa de duas cabeças
Pecai por todos pecai com todos
Pecai com malandros
Pecai com sargentos
Pecai com fuzileiros navais
Pecai de todas as maneiras
Com os gregos e com os troianos
Com o padre e o sacristão
Com o leproso de Pouso Alto
Depois comigo
Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas comerei terra e direi coisas
de uma ternura tão simples
Que tu desfalecerás
Procurem por toda à parte
Pura ou degradada até a última baixeza
Eu quero a estrela da manhã.
Outro texto-síntese, um dos mais expressivos poemas lírico-amoroso
de todo o Modernismo. Observe a celebração da mulher amada, evocada
na metáfora estrela; a enumeração caótica das imagens,
o desconcerto amoroso. Na quinta e sexta estrofes, observe uma espécie
de ladainha para celebrar a amada, para fazer uma invocação (na
verdade, é uma paródia da ladainha para a Virgem Maria, que acompanhava
a reza do terço: consoladora dos aflitos / rogai por nós etc).
observe a intensidade - até o delírio - da confissão amorosa
nas duas últimas estrofes.
Arte de amar
Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.
Um dos mais conhecidos poemas com tema da morte. Observe o tom sereno, familiar,
camarada. Consolada, a ceia de fim de ano, no texto representa encontro simbólico
com a morte. O poema apresenta um balanço do vivido, sem ilusões
contra a própria finitude, e não se desfigura diante da presença
indesejada pelas gentes. O dia foi bom, com cada coisa no seu lugar. Observe
também, tal como nos outros textos, a linguagem coloquial, a estrófica
irregular, heterogênea, o verso livre.
Poema filosófico, fundamentador da lírica erótica, intensamente
corporal, de Manuel Bandeira. Observe a ruptura do senso comum, das concepções
espiritualizantes e platônicas de amor. O texto, de natureza dissertativa,
com ponto de vista e processo de argumentação, é também
radicalmente poético, pela força das imagens e dos ritmos. O
texto é dirigido para alguém, para um interlocutor, que acaba
se transformando no próprio leitor.
Consoada
Quando a Indesejada das gentes chagar
(Não sei se dura ou coroável),
Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
- Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa.
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar
  
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