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Distraídos Venceremos - Paulo Leminski
O livro de poemas Distraídos venceremos divide-se em três partes,
num total de 109 textos: "Distraídos venceremos", "Ais
ou menos", e "Kawa cauim". Essa última seção é dedicada
aos haicais, e será comentada à parte, por se tratar de um tipo
peculiar de poema.
Entre os 80 poemas das duas primeiras partes, 38 são metapoemas. Essa
incidência de quase a metade de textos sobre poesia denuncia a preocupação
de Leminski com o fazer poético, e nos mostra o ponto de partida, ou
a porta de entrada para a poesia do agitador cultural curitibano. Como escrever
a metade dos poemas de um livro sobre a poesia sem desesperar os leitores,
ou propositalmente desesperando, ou reveleminskando? Há que perseguir,
em sua via de loucoções, revérbios, frases desfeitas e
lugares-incomuns, a concepção poética do artista. Em sua
correspondência a Régis Bonvicino, Leminski declara: "Ser
poeta é ter nascido com um erro de programação genética
que faz com que, em lugar de você usar as palavras pra apresentar o sentido
delas, você se compraz em ficar mostrando como elas são bonitas,
têm um rabinho gostoso, são um tesão de palavra".
E acrescenta, reafirmando a correspondência sexual da fruição
poética: "O poeta é aquele que deglute a palavra como objeto
sexual mesmo, como um objeto erótico. Para mim, a poesia é a
erotização da linguagem, o princípio de prazer na linguagem".
Vamos tentar esclarecer o anseio do poeta, partindo do título do livro
e de sua primeira parte.
É evidente a desmontagem e remontagem do anexim "unidos venceremos".
A expressão, em sua trajetória lingüístico-cultural, é bastante
convergente, como locução cristalizada e como formação
etimológica: ela remete para um único sentido, para a unidade.
Ao desfazer a frase feita, o poeta acrescenta-lhe múltiplas possibilidades.
Se se considerar que o verbo distrair descende do latim distrahere, e significa "puxar
para diversas partes", teremos de início o desmonte da idéia
de unidade, de convergência. A expressão se liberta de sua carga
cultural e sua prisão etimológica para começar a atirar
para todos os lados, com conotações até desencontradas:
desatentos, inadvertidos, descuidados, divertidos, alheios, abstraídos,
desviados, desencaminhados, extraviados, esquecidos... Venceremos mesmo assim?
Sim, a poesia vai nos encontrar de várias maneiras, ela só não
vai mostrar caminhos, ela não tem que esclarecer coisas, ditar regras,
sistematizar, e sim dispersar, produzir possibilidades. Por que "venceremos",
na primeira pessoa do plural? Porque, conforme declarou Leminski, "poeta
não é só quem faz poesia. É também quem
tem sensibilidade para entender e curtir poesia. Mesmo que nunca tenha arriscado
um verso. Quem não tem senso de humor, nunca vai entender a piada".
O título é, portanto, um convite para que os poetas da emissão
e da recepção possam se desentender na maior desunião,
e tirando o maior proveito disso. A poesia vai nos encontrar de várias
maneiras, ela só não vai mostrar caminhos, ela não tem
que esclarecer coisas, ditar regras, sistematizar, e sim dispersar, produzir
possibilidades.
Um Destratado Poético
O primeiro poema da primeira parte, "Aviso aos náufragos",
contém a essência da concepção de poesia do autor,
e funciona como uma advertência. Temos aí novamente o processo
desmonte-remonte. Navegante viaja na superfície; náufrago afunda,
aprofunda, sucumbe, deixa-se envolver pelo oceano. E de todos os náufragos,
os mais profundos são os náugrafos (cf. "O náufrago
náugrafo"). Quem são os náufragos? O poeta criador,
os poetas leitores, as poesias palavras. Vamos então ao aviso.
A página na qual se leminskreve a poesia nasceu branca, pálida,
primitiva como uma folha de árvore, ou histórica e canônica
como a epopéia Ilíada. Não era para ser lida, ou já trazia
a leitura de séculos, em sua brancura de areia, em seu recôndito
inacessível da constelação ou do pico mais alto, até que
se sujou com a mancha gráfica, a partitura para os olhos, o poema. Aí comparece
aquele "rabinho gostoso" na "sílaba sentida", o "ai!" dolorido
do Himalaia, a poesia em suspensão para mostrar que sílaba também
sente dor. A que não nasceu ainda: a página por vir. As águas
sagradas do rio Nilo conduzem a palavra, inscrita no papiro, a escrita vai
cumprir seu destino histórico, vai ter tradução em todos
os sistemas lingüísticos, vai tornar-se comum a todos, vulgarizando
as confidências. Acima de tudo, o poema vai inverter a ordem comum das
coisas, tornando-se a pedra sobre a qual o vidro do entendimento cai e se fragmenta.
Se a pedra não vai ao telhado, o telhado vai até a pedra.
Ao final, a poesia se aproxima da vida naquilo que ela tem de inesperado,
fragmentado, desordenado, irracional. A idéia de que a poesia deve carregar
em si o imperativo da mudança aparece também em "A lei do
quão", que pode ser traduzido como "a lei de como fazer poesia" em
que a clássica Branca de Neve vai sofrer em breve uma mudança
de textura e de temperatura. Para fazer o máximo do mínimo, o
poeta deve estar atento aos menores detalhes da língua.
A poesia não apresenta um caminho fácil de transitar, a escrita é infinita;
assim como a vida, percorre estradas turbulentas. O momento da criação é encenado
em "Adminimistério": como administrar o pequeno mistério
da inspiração que visita o poeta em seu sono da meia-noite? Insetos
visitam a folha branca, como se palavras fossem. Ou são mesmo, a julgar
pelas "nuvens de equívocos" ou "enxames de monólogos" presentes
em "Iceberg", uma paradoxal pedra de gelo reduzida ao mínimo
necessário, "um piscar de espírito", que poesia não
tem que ficar explicando as coisas. "One-way poetry", como definiu
uma vez o Leminski, completando: "poesia-curtiu-cabou". É a
tendência à síntese buscada pelo autor: "A única
razão de ser da poesia é o antidiscurso. Poesia, num certo sentido, é o
torto do discurso. O discurso torto". Da mesma forma o impulso que leva
o poeta a escrever não pode ser explicado. Há tentativas: porque
ele precisa, porque ele está embriagado (tonto, mesmo, ele que morreu
de hepatite etílica), porque o dia amanhece... Afinal, não existe
explicação. "Tem que ter por quê?"
Em "Diversonagens suspersas", o poeta fala sobre ser poeta. O princípio
da superposição de palavras se realiza aqui como amálgama
de diversas-personagens-suspensas-dispersas, que confirma também o princípio
da dispersão, da divergência. O poeta está perdido "no
exato lugar onde está", e seu verso também ainda não
pode ser localizado, ele está Em algum lugar de um lugar, onde o avesso
do inverso começa a ver e ficar. Embora saiba que está pervertendo
/ subvertendo a língua pátria, ele tem tanta fé na poesia
quanto um canônico Gonçalves Dias: Por mais prosas que eu perverta,
não permita Deus que eu perca meu jeito de versejar. Semelhante à enxurrada
do Nilo, um texto está repleto de ecos históricos, ele carrega
em si a história dos outros textos da humanidade.
Até que ponto essa impregnação histórica influencia
o texto do poeta? É o que ele pergunta em "Distâncias mínimas":
ouvir é ver se se se se se ou se me lhe te sigo? Todas as palavras que
mancham um papel já foram escritas alguma vez por alguém, é o
que reitera o poeta em "Plena pausa". Assim como o branco é a
soma de todas as cores, a página branca contém a "soma de
todos os textos". "Folha isenta" não existe. Mesmo a
mais pura areia do Saara longínquo possui uma carga de significação
que o artista não pode ignorar: Nunca houve isso, uma página
em branco. No fundo, todas gritam, pálidas de tanto. Ciente de que nem
a página se apresenta a ele isenta, o poeta tem de correr atrás
da palavra, o elemento lúdico, combinatório, anagramático,
mais significante do que significado. São os artefatos a que ele se
refere em "Passe a expressão", em que o ofício do poeta
se apresenta irreverentemente associado aos eventos fisiológicos de
comer e defecar.
A idéia da poesia como uma mancha no papel é retomada novamente
na disgusting metáfora das fezes sujando o papel higiênico. A
impotência de buscar o sentido, ou a falta de sentido da busca do sentido
não é só do leitor; os conceitos são sobrepostos,
as frases e as palavras também, são fragmentos que se dispersam,
ao invés de convergirem para um sentido; assim é a confusão
essencial do poeta, que só por amar as palavras se sente confundido
por elas: Se tudo existe para acabar num livro, se tudo enigma a alma de quem
ama. Os conceitos são sobrepostos, as frases e as palavras também,
são fragmentos que se dispersam, ao invés de convergirem para
um sentido; assim é a confusão essencial do poeta, que só por
amar as palavras se sente confundido por elas. Talvez por sua confusão,
o poeta sente em si o peso do idioma corriqueiro que ele não criou,
e busca "O par que me parece", uma língua idealizada, próxima
da pureza primitiva dos Hititas, ou das imaculadas areias da praia distante.
A mesma metáfora da areia como ideal de pureza poética aparece
também em "Aviso aos náufragos" e em "Plena pausa",
de difícil - ou impossível - alcance. Mas o poeta continua perseguindo
o idioma poético de palavras essenciais, em que cada uma delas vale
por duas.
Na linha do equívoco essencial, a poesia ilude tanto o poeta criador
quanto o poeta leitor; ela é feita de luzes que se refletem, porém
luzes enganosas: o que parece verde é sinal vermelho que barra a passagem.
A poesia é o desencontro dos contrários, dos "Desencontrários".
As palavras resistem às ordens do poeta, parecem fora de si, não
acham as saídas, terminam por não levar a nada: Fazer poesia,
eu sinto, apenas isso. Dar ordens a um exército, para conquistar um
império extinto.
O poeta leitor, por sua vez, tem que aprender a "Ler pelo não",
tentar ler o que não é apenas óbvio, o ausente, o silencioso.
O leitor que conseguir "desler, tresler, contraler" vai ser premiado
com a América procurando as Índias, vai ver o dentro fora e o
fora dentro, vai encontrar tudo aquilo que não esperava onde era impossível
encontrar. Ler, ensina o poeta em "M de memória", não
passa de uma lenda, já que as obras são um acúmulo de
histórias inúteis. O saber é um bem inútil em "Objeto
sujeito". Sabedoria é não saber nada que valha a pena (pasárgada,
xanadu, shangrilá, ou a chave de um poema).
"Poesia: 1970" é poesia marginal, aquela em que um rabisco
já é um clássico. Sobre a poesia marginal, o poeta declarou
certa vez: "a poesia dos anos 70, ou 'marginal', é ótima:
ela registra bobagens tão insignificantes que nenhuma prosa se dignaria
recolher para as eternidades da memória. A poesia dos anos 70 é uma
antropofagia." A voz poética despreza quem defende a poesia de
impulso, de improviso, mas garante que continua a cometê-la. "Despropósito
geral" é o despropósito de escrever obras-primas, como resultado
de uma estranha luta e muito abuso, quando na verdade sua poesia é eco
de toda a escrita do mundo.
Em "Um metro de grito", Leminski metaforiza o comércio poético
perguntando: "quanto me dão / por minhas idéias?" A
recepção da poesia é algo enganosa, "coisas que eu
vendo a metro / eles me compram aos quilos", afinal para que serve a arte,
para que se consomem filmes, livros, discos? Diante da postura dos intelectuais
brasileiros de defesa comiserada da poesia, que, segundo eles, é injustiçada
pelo grande público, que não a consome, Leminski dizia que poesia
não é feita para vender: "Poesia é um ato de amor
entre o poeta e a linguagem". Daí a idéia de grito associada à poesia,
que aparece em 'Um metro de grito", "O par que me parece", "Passe
a expressão", e "Distâncias mínimas": o
desabafo, o orgasmo, o produto dessa relação de amor. Essa relação
de amor chega a ser adoração, como em "Anch'io son pittore" ("Eu
também sou pintor"), em que o eu-lírico refere-se à postura
de Fra Angelico, pintor italiano do século XV, que se ajoelhava diante
de suas pinturas religiosas, como se fosse pecado não se curvar diante
de tão magnífica criação: "orava como se a
obra / fosse de deus não do homem". Ao declarar-se também "pittore",
a voz poética confessa sua adoração pela obra poética,
obra divina.
Poesia pode ser arte sublime mas também pode traduzir-se em "Rimas
da moda", cada tempo com seu verso característico: na década
de 1930, as rimas singelas de amor puro e o sofrimento amoroso; nos anos sessenta,
a poesia em defesa de uma sociedade mais justa; nos anos 80, a liberação
sexual na sedução amorosa. Esse império dos signos em
dispersão é o mundo das palavras em "Nomes a menos".
Nome não é coisa, é o que resta das coisas quando elas
passam. E todas passam, só os nomes ficam, a palavra é mais resistente
do que a coisa nomeada. E a "alma" do signo não tem nome e
não é coisa, nome e coisa são coisas que doem dentro do
nome, "que não tem nome que conte / nem coisa pra se contar".
A dispersão das palavras e expressões na folha branca retorna
em "Sortes e cortes", em que uma tesoura deforma a folha, que contém
uma magia diabólica, "claro oculto entre as claridades", uma
sensação de vazio que dá saudade.
Em "Sujeito indireto", o poeta declara que sua luta com as palavras
poderia ser amenizada se ele pudesse atingir a perfeição ainda
no projeto. Seu desejo era vislumbrar a arte perfeita antes de começar
a obra, mas isso é impossível. E assim continuam a desfilar os
flashes poéticos com seus recados. "Como pode?": a poesia
de hoje é diferente da de ontem, tudo muda, provoca uma sensação
de estranhamento; "Rosa Rilke Raimundo Correa": o trabalho poético
tenta transformar sensações em palavras; "O atraso pontual":
a inspiração é um "impuro espírito",
ao mesmo tempo arquiteto e vampiro, racional e sobrenatural, a poesia existe
na ausência do tempo e do espaço no encontro do tempo e do espaço,
a essência da solidão do poeta e de sua poesia; "Segundo
consta": o poeta rejeita o projeto de felicidade que a sociedade lhe propõe,
e ao acabar o mundo, ele será reconstruído segundo a ótica
poética, com exceção talvez do amor: será possível
sua recriação? Alguém se lembra de como ele era antes?
Leminskietações Amorosas
Outras são as temáticas: a vida incompleta e inexplicável,
a inutilidade da memória, a apreensão do mundo em suspensão,
em flashes atemporais, o amor/desamor do homem, sua infinita incapacidade de
amar ou de lidar com o enigma amoroso, a ambigüidade e indefinição
do ser humano em sua trajetória tortuosa, plena de problemas que não
se resolvem e constituem família: problemas têm família
grande, e aos domingos saem todos passear o problema, sua senhora e outros
pequenos probleminhas Merece destaque a temática amorosa, que comparece
como segunda em presença, com nove ocorrências. Leminski se queixava
de que nenhuma disciplina científica nunca tenha tratado do amor como
objeto de estudo: "O amor é uma coisa que você vai ter que
procurar nos artistas, na televisão, no cinema, e, principalmente, na
poesia". Já que a ciência o despreza, vamos achá-lo
nos textos. Mas o que é o amor para o Paulo? É tudo o que é a
poesia e a vida: incertezas, mudanças constantes, desencontros, relacionamentos
instáveis. Mas o que é o amor para o Paulo? É tudo o que é a
poesia e a vida: incertezas, mudanças constantes, desencontros, relacionamentos
instáveis. Alguns exemplos de como esse Leminski fabricou seus miúdos
momentos de poesia, partículas subatômicas, prótons, elétrons,
grãos de poeira cósmica. exploração de frases feitas
e anexins "Distraídos venceremos" "Aviso aos náufragos" invenções
léxicas (neologismos) "Espaçotempo ávido, lento espaçodentro" "Dois
leos em cada pardo" "Em Brasília admirei. não a niemeyer
lei" textura paronomástica "A vocês, eu deixo o sono.
O sonho, não. Esse, eu mesmo carrego." "Náugrafo o
náufrago mais profundo" montagem "Diversonagens suspersas" "Adminimistério" estrangulamento "a
letra A a funda no A tlântico e pacífico com templo a luta entre
a rápida letra e o oceano lento" repetição "um
texto texto cego um eco anti anti anti antigo um grito na parede rede rede
volta verde verde verde" palavras e frases estrangeiras (estrangeirismos) "Anch'io
son pittore" "Oceans, emotions, ships, ships, and other relationships,
keep us going through the fog, and wandering mist." deformações
ortográficas "náugrafo" "desab rocha o maracujá" enumeração
caótica "Argila, esponja, mármore, borracha, cimento, aço,
vidro, vapor, pano e cartilagem, tinta, cinza, casca de ovo e grão de
areia, primeiro dia de outono, a palavra primavera, número cinco, o
tapa na cara, a rima rica, a vida nova, a idade média, a força
velha," trocadilho "ano novo anos buscando um ânimo novo" "tudo
dito, nada feito, fito e deito" Ele já começa vazio num
poema sem título ("Pra que título? O poema não funciona
sozinho?"), e reflete o próprio vazio da existência, "essa
maldita capacidade, / transformar amor em nada". A maldita incapacidade
de amar é reiterada no coração do eu-lírico de "Além
alma", o qual não tem vaga nem lugar para o amor, cuja presença
faz sofrer, cuja ausência cai macio. O sentimento continua negado na
lógica lúdica do poema sem título cujos primeiros versos
são "sorte no jogo / azar no amor": o jogo do amor não
serve para quem não gosta de jogo, independente de azar ou sorte, e
sua falta provoca "Parada cardíaca". Entretanto, o amor às
vezes insiste, aí dá merda, como em "Merda e ouro": "Não
há merda que se compare / à bosta da pessoa amada". Quando
ele chega, incomoda. Você não pode medi-lo, mas sabe que ele aumenta
ou diminui ("há pouco era muito, / agora apenas um sopro").
Amar exige luta e muita vontade: "a pedra só não voa / porque
não quer / não porque não tem asa". Contraditoriamente,
o sentimento amoroso, por mais que seja negado, permanece: "sentir fica".
Poesia-Curtiu-Cabou
Depois de tanta poesia sobre poesia, poeta, leitor, e depois amor, vamos aos
haicais de "Kawa cauim". O que é isso? Parece-nos o ideograma
de "rio" em japonês como o high spirit do delírio tupiniquim.
Esta parte tem como subtítulo "Desarranjos florais", justificando
o fato de que a seção não se compõe de haicais
formalmente perfeitos. Mesmo mantendo os três versos tradicionais do
haicai, como acontece na maioria das vezes, eles nunca obedecem à estrutura
tradicional de 5-7-5 sílabas. Em outros casos, o pequeno poema apresenta
não três, mas quatro, cinco ou seis sílabas, e às
vezes tem até título, o que foge à característica
formal do pequeno poema japonês. Leminski começou a se interessar
pelo haicai em torno dos vinte anos de idade, estudando e traduzindo autores
japoneses, principalmente Matsuo Bashô, poeta japonês (segunda
metade do século XVII) que levou o haicai à perfeição.
O haicai como forma fixa é um pequeno poema de três versos, de
5, 7 e 5 sílabas, respectivamente.
O próprio Leminski explica as funções dos três
versos do haicai: "O primeiro verso expressa, em geral, uma circunstância
eterna, absoluta, cósmica, não humana, normalmente, uma alusão à estação
do ano, presente em todo haicai. O segundo verso representa a ocorrência
do evento, o acaso da acontecência, a mudança, a variante, o acidente
casual. Por isso, talvez, tenha duas sílabas a mais que os outros. A
terceira linha do haicai apresenta interação entre a ordem imutável
do cosmos e o evento." Segundo o especialista Reginald Horace Blyth, citado
pela poeta Alice Ruiz (ex-mulher de Paulo Leminski), destacam-se no haicai
as seguintes características principais:
a) a ausência do eu, onde o poeta procura não deixar transparecer
sua individualidade, inserindo sua opinião;
b) não moralidade, pois questões morais configurariam prosa
e não poesia;
c) solidão, a plenitude de estar só consigo mesmo;
d) grata aceitação, o que nos torna mais felizes, independente
das coisas que nos aconteçam;
e) intelectualidade ou ausência das palavras, procurando usar mais substantivos
do que adjetivos;
f) contradição, de notada influência do espírito
zen, à semelhança dos koan (anedotas), que servem para o mestre
treinar seus discípulos."
Antes de se iniciarem os "Desarranjos florais", parte que contém
os haicais propriamente ditos, o poeta explica o ideograma de kawa, rio em
japonês, e "explica" a filosofia de "Hai" e "Kai". "Hai" nasce
perfeito, e definha ao iniciar a busca de si mesmo, do conhecimento, das explicações
da vida, da arte e da poesia, diminui ao crescer e morre germe. "Kai" reitera
o estado quase puro da poesia, que retira o corpo mas deixa a sombra, o mu-ga
("não-eu", em japonês, o exato ponto de harmonia entre
o eu e as coisas).
A adoração de Leminski pelo haicai começa por sua crença
no texto curto, de bate-pronto, típica de uma poesia feita de "saques,
piques, toques & baques" A adoração de Leminski pelo
haicai começa por sua crença no texto curto, de bate-pronto,
típica de uma poesia feita de "saques, piques, toques & baques",
como se auto-analisa o poeta. Para ele, "o haicai valoriza o fragmentário
e o 'insignificante', o aparentemente banal e o casual, sempre tentando extrair
o máximo do significado do mínimo de material, em ultra-segundos
de hiper-informação. De imediato, podemos ver em tudo isso os
paralelos profundos com a estética fotográfica. Esses traços
característicos do haicai podem ser transpostos sem nenhuma dificuldade
para a fotografia". Vejamos um deles: noite sem sono o cachorro late um
sonho sem dono. Seguindo o hexálogo de Horace Blyth, constatamos que
o poemeto:
a) não revela um eu subjetivo;
b) não lida com questões morais;
c) apresenta a solidão essencial;
d) pressupõe a grata aceitação tipicamente zen;
e) contém poucas palavras, com predominância de substantivos;
f) apresenta uma incoerência no objeto da ação de latir.
O haicai capta o mundo exterior, a fotografia de um momento, que ultrapassa
sua própria vulgaridade. Apesar da elisão do sujeito, apresenta-se
um Eu maior (mu-ga), que permite que o mundo seja, sem a interferência
de anseios e temores. A noite sem sono não é a insônia
de um homem, é um estado de coisas da própria noite, uma declaração
de que ela está lá, "uma circunstância eterna, absoluta,
cósmica". O evento, a perturbação vem com o latido
do cão, sem dono, como a noite, o sono e o sonho. O sonho sem dono da
terceira linha é o elemento que concilia as duas anteriores, que completa
a cena, arredondando-a; não necessariamente a conclusão lógica,
mas a parte integrante que confere unidade à tríade. E assim
seguem os "desarranjos" do Paulo, sobre o mar, o céu, o sábado
ou simplesmente o dia de vida, o sol, a chuva, as praias, o inverno, a lua,
o vento, a alvorada, o temporal, a tarde... Aí ele ri e lhe dá de
presente: rio do mistério que seria de mim se me levassem a sério?
No dia 7 de julho de 1989, aos 45 anos, ele desencarnou. E deixou o seu adeus:
Adeus, coisas que nunca tive, dívidas externas, vaidades terrenas, lupas
de detetives, adeus. Adeus, plenitudes inesperadas, sustos, ímpetos
e espetáculos, adeus. Adeus, que lá se vão meus ais. Um
dia, quem sabe, sejam seus, como um dia foram dos meus pais. Adeus, mamãe,
adeus, papai, adeus, adeus, meus filhos, quem sabe um dia todos os filhos serão
meus. Adeus, mundo cruel, fábula de papel, sopro de vento, torre de
babel, adeus, coisas ao léu, adeus.
  
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