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As Horas Nuas - Lygia Fagundes Telles
O romance As Horas Nuas, publicado em de 1989, mostra os problemas da condição
humana como a loucura, o amor, a morte. Rosa Ambrósio – uma excêntrica
e decadente atriz que faz um balanço da sua vida em meio ao álcool
e à solidão, medíocre, mãe egoísta, dona-de-casa
descuidada – é uma alcoólatra que atravessa a linha que
separa a loucura da lucidez, sofrendo da PMD – psicose maníaco-depressiva.
Neste romance, sem começo e sem fim, os personagens centrais são
Rosa Ambrósio e Rahul, um gato que um dia foi poeta do Império
Romano. Os sonhos e devaneios de Rosa misturam-se aos do gato, que são
alinhavados na voz da empregada Dionísia.
A personagem Rosa se sobressai com sua lucidez fulgurante, rápida,
irônica. Ri de si própria (da sua atual condição)
e neste processo às vezes age com auto-flagelação, com
certa dose de gozo e também de masoquismo. Irritada com as pessoas,
com a frivolidade coletiva, de tão lúcida, às vezes beira
a loucura.
Rosa vive de lembranças, da fama antiga, do passado de glória
e brilho. A viagem que ela faz é interior, indaga sobre a sua existência,
a sua vida. Seu silêncio e solidão representam a espera do seu
homem que prometeu voltar um dia. Enquanto espera esse homem, ela tem a companhia
do gato Rahul, um gato que pensa, reflete, tem passado e age (quase) como um
interlocutor. A figura do gato no livro é decisiva e de suma importância.
A solidão de Rosa é encarada de forma infeliz, uma vez que ela
paira sempre interditando o desejo do outro, da espera desse outro, transformado
em sombra. Solidão que pode levou Rosa a um processo de amadurecimento
e crescimento.
Trecho escolhido
Agora ela dorme esparramada no chão, a boca entreaberta puxando um
ronco de bebedeira. A camisola com a alça rasgada. Embolado aos pés
da cama está o robe de chambre azul-claro adamascado, o espelho e uma
escova de cabelo. Deve ter rolado para o chão atapetado e assim como
caiu assim ficou. Implicava tanto com o meu ron-ron, Mas o Rahul é tão
asmático, pobrezinho! O peito dele parece um vulcão que vai explodir.
E não sabia que esse ron-ron era o motorzinho da alegria no tempo da
alegria. Levezas de um gatinho sem lembranças que gostava de brincar
com o raio de sol no tapete. Ou com o pingente da cortina até se cansar
e dormir.
Subo na poltrona. O quarto está escuro mas vejo Rosa Ambrósio
como se as venezianas estivessem abertas, são persianas. Essas tiras
metálicas que se enrolam e desenrolam diferentes das venezianas verdes
da minha vida de menino lá no casarão das três mulheres.
Minha irmã estrábica costumava abri-las com um movimento tão
vigoroso que eu tinha a impressão de que ela se preparava para levantar
vôo subitamente rejuvenescida: segurava nas duas argolas, ficava na ponta
dos pés e dando um impulso para a frente, abria os braços e as
folhas de par em par. Debruçava-se em seguida no parapeito da janela
e prendia as venezianas com os bonequinhos verdes de ferro esmaltado que ficavam
do lado de fora, um de cada lado feito sentinelas. Quando anoitecia, baixava
os bonequinhos e puxava para dentro as venezianas que se fechavam como asas.
Tenho um nome de gente na minha condição de gato. Mas antes,
quando eu era gente? Aquele é o menino da casa das venezianas verdes,
alguém me apontou. Vou andando e olhando o carpete branco-azulado, será que
ela vomitou? Há cinza de cigarro, peças de roupa, um copo tombado,
manchado de vinho mas nenhum sinal de vômito. E o cheiro pairando no
ar. Espantoso o laboratório que não descansa, o vinho perfumado
acaba de descer e já começa a fermentação, tudo
se transforma rapidamente na química humana. Para pior.
Ando na cama revolvida. Do alto dos travesseiros posso ver melhor o seu perfil.
Que resiste como nas medalhas. Mas sem os banhos de sol, sem as massagens e
duchas a pele se ressentiu, parece mais flácida. Baça. Cresce
seu horror pela claridade, pela rua. Tanta violência lá fora!,
respondeu à filha. E depois, sair com quem? Os amigos foram se afastando à medida
que sua estrela começou a ficar cinzenta. Restou a Lili que chega de
repente toda enfeitada e quer arrastá-la a um restaurante. A um cinema.
Ao teatro, nem pensar, já avisou aos que ainda fazem convites, Nunca
mais piso num teatro.
- Mãezinha querida, você disse que ia almoçar comigo e
não foi, queixou-se Cordélia.
- Hoje não acordei brilhante. A Diú leu o horóscopo,
tem aí uma conjuntura de astros que é um horror.
Cordélia foi apanhar o cinzeiro. Transita descalça pelos dois
apartamentos com sua leve bata oriental e com a graça de quem acabou
de sair do banho, é mais bonita de cara lavada. usa uns vestidinhos
soltos, no estilo de uma túnica romana. Quando aparece assim - as coincidências!
- lá das lonjuras me vem a imagem de uma jovem de túnica me olhando
na alcova, minha mulher? Esqueça. Mãe e filha juntas. O diálogo
breve. As visitas breves.
- Vinte e oito anos, Cordélia?
- Trinta, mãezinha, trinta.
- Aparenta dezoito, querida. Diminuo sempre a minha idade e a dos outros,
essa mania de idade, hem?! Tirante o médico, alguém ousou algum
dia perguntar à mamãe, Quantos anos, minha senhora? A gente agora
dá um espirro e já vem a caneta, o microfone, o gravador. Sua
idade? Enfim, os jogos já estão feitos, não importa mais.
  
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