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A Cartomante - Machado de Assis
Conto que surpreende pela excelente estrutura narrativa, dividida em três
partes. Na primeira, introdutória, fica-se sabendo que Rita, dotada
de espírito ingênuo, havia consultado uma cartomante, achando
que seu amante, Camilo, deixara de amá-la, já que não
visitava mais sua casa. Desfeito o mal-entendido, faz-se um flashback que vai
explicar como se montou tal relação. Camilo era amigo, desde
longínqua data, de Vilela. Tempos depois, este se casa com Rita. A amizade
estreita a intimidade entre Camilo e Rita, ainda mais depois da morte da mãe
dele. Quando sente sua atração pela esposa do amigo, tenta evitar,
mas, enfim, cai seduzido. Até que recebe uma carta anônima, que
deixava clara a relativa notoriedade da sua união com a esposa do seu
amigo. Temeroso, resolve, pois, evitar contato com a casa de Vilela, o que
deixa Rita preocupada. Terminada essa recapitulação, vai-se para
a parte crucial do conto. Camilo recebe um bilhete de Vilela apenas com a seguinte
mensagem: “Vem já, já”. Seu raciocínio lógico
já faz desconfiar que o amigo havia descoberto tudo. Parte de imediato,
mas seu tílburi (espécie de carruagem de aluguel que equivaleria,
hoje, a um táxi) fica preso no tráfego por causa de um acidente.
Nota uma estranha coincidência: está parado justamente ao lado
da casa da cartomante. Depois de um intenso conflito interior, decide consultá-la.
Seu veredicto é dos mais animadores, prometendo felicidade no relacionamento
e um futuro maravilhoso. Aliviado, assim como o tráfego, parte para
a casa de Vilela. Assim que foi recebido, pôde ver, pela porta que lhe é aberta,
além do rosto desfigurado de raiva de Vilela, o corpo de Rita sobre
o sofá. Seria, portanto, a próxima vítima do marido traído.
Note neste conto sua estrutura em anticlímax, pois tudo nele (já a
partir da citação inicial da famosa frase de Hamlet: “há mais
cousas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia”) nos
prepara para um final em que o misticismo, o mistério imperaria. No
entanto, seu final é o mais realista e lógico, já engendrado
no próprio bojo do conto. Reforça esse aspecto o ritmo da narrativa,
que é lento em sua maioria, contrastando com seu desfecho, por demais
abrupto. E não se esqueça da presença de um quê de
ironia nesse contraste entre corpo da narrativa e o seu final.
Leia abaixo o conto na integra:
HAMLET observa a Horácio que há mais cousas no céu e
na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação
que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de novembro de
1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante;
a diferença é que o fazia por outras palavras.
— Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada.
Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que
eu lhe dissesse o que era. Apenas começou a botar as cartas, disse-me: "A
senhora gosta de uma pessoa..." Confessei que sim, e então ela
continuou a botar as cartas, combinou-as, e no fim declarou-me que eu tinha
medo de que você me esquecesse, mas que não era verdade...
— Errou! interrompeu Camilo, rindo.
— Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho
andado, por sua causa. Você sabe; já lhe disse. Não ria
de mim, não ria...
Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela sério e fixo. Jurou
que lhe queria muito, que os seus sustos pareciam de criança; em todo
o caso, quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois,
repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela podia
sabê-lo, e depois...
— Qual saber! tive muita cautela, ao entrar na casa.
— Onde é a casa?
— Aqui perto, na Rua da Guarda Velha; não passava ninguém
nessa ocasião. Descansa; eu não sou maluca.
Camilo riu outra vez:
— Tu crês deveras nessas cousas? perguntou-lhe.
Foi então que ela, sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe
que havia muita cousa misteriosa e verdadeira neste mundo. Se ele não
acreditava, paciência; mas o certo é que a cartomante adivinhara
tudo. Que mais? A prova é que ela agora estava tranqüila e satisfeita.
Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se. Não queria arrancar-lhe as
ilusões. Também ele, em criança, e ainda depois, foi supersticioso,
teve um arsenal inteiro de crendices, que a mãe lhe incutiu e que aos
vinte anos desapareceram. No dia em que deixou cair toda essa vegetação
parasita, e ficou só o tronco da religião, ele, como tivesse
recebido da mãe ambos os ensinos, envolveu-os na mesma dúvida,
e logo depois em uma só negação total. Camilo não
acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não
possuía um só argumento: limitava-se a negar tudo. E digo mal,
porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade;
diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando.
Separaram-se contentes, ele ainda mais que ela. Rita estava certa de ser amada;
Camilo, não só o estava, mas via-a estremecer e arriscar-se por
ele, correr às cartomantes, e, por mais que a repreendesse, não
podia deixar de sentir-se lisonjeado. A casa do encontro era na antiga Rua
dos Barbonos, onde morava uma comprovinciana de Rita. Esta desceu pela Rua
das Mangueiras, na direção de Botafogo, onde residia; Camilo
desceu pela da Guarda Velha, olhando de passagem para a casa da cartomante.
Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma aventura e nenhuma explicação
das origens. Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de infância.
Vilela seguiu a carreira de magistrado. Camilo entrou no funcionalismo, contra
a vontade do pai, que queria vê-lo médico; mas o pai morreu, e
Camilo preferiu não ser nada, até que a mãe lhe arranjou
um emprego público. No princípio de 1869, voltou Vilela da província,
onde casara com uma dama formosa e tonta; abandonou a magistratura e veio abrir
banca de advogado. Camilo arranjou-lhe casa para os lados de Botafogo, e foi
a bordo recebê-lo.
— É o senhor? exclamou Rita, estendendo-lhe a mão. Não
imagina como meu marido é seu amigo, falava sempre do senhor.
Camilo e Vilela olharam-se com ternura. Eram amigos deveras.
Depois, Camilo confessou de si para si que a mulher do Vilela não desmentia
as cartas do marido. Realmente, era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos,
boca fina e interrogativa. Era um pouco mais velha que ambos: contava trinta
anos, Vilela vinte e nove e Camilo vinte e seis. Entretanto, o porte grave
de Vilela fazia-o parecer mais velho que a mulher, enquanto Camilo era um ingênuo
na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do tempo,
como os óculos de cristal, que a natureza põe no berço
de alguns para adiantar os anos. Nem experiência, nem intuição.
Uniram-se os três. Convivência trouxe intimidade. Pouco depois
morreu a mãe de Camilo, e nesse desastre, que o foi, os dois mostraram-se
grandes amigos dele. Vilela cuidou do enterro, dos sufrágios e do inventário;
Rita tratou especialmente do coração, e ninguém o faria
melhor.
Como daí chegaram ao amor, não o soube ele nunca. A verdade é que
gostava de passar as horas ao lado dela, era a sua enfermeira moral, quase
uma irmã, mas principalmente era mulher e bonita. Odor di femmina: eis
o que ele aspirava nela, e em volta dela, para incorporá-lo em si próprio.
Liam os mesmos livros, iam juntos a teatros e passeios. Camilo ensinou-lhe
as damas e o xadrez e jogavam às noites; — ela mal, — ele,
para lhe ser agradável, pouco menos mal. Até aí as cousas.
Agora a ação da pessoa, os olhos teimosos de Rita, que procuravam
muita vez os dele, que os consultavam antes de o fazer ao marido, as mãos
frias, as atitudes insólitas. Um dia, fazendo ele anos, recebeu de Vilela
uma rica bengala de presente e de Rita apenas um cartão com um vulgar
cumprimento a lápis, e foi então que ele pôde ler no próprio
coração, não conseguia arrancar os olhos do bilhetinho.
Palavras vulgares; mas há vulgaridades sublimes, ou, pelo menos, deleitosas.
A velha caleça de praça, em que pela primeira vez passeaste com
a mulher amada, fechadinhos ambos, vale o carro de Apolo. Assim é o
homem, assim são as cousas que o cercam.
Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita,
como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar
os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e
subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura, mas a
batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos! Não
tardou que o sapato se acomodasse ao pé, e aí foram ambos, estrada
fora, braços dados, pisando folgadamente por cima de ervas e pedregulhos,
sem padecer nada mais que algumas saudades, quando estavam ausentes um do outro.
A confiança e estima de Vilela continuavam a ser as mesmas.
Um dia, porém, recebeu Camilo uma carta anônima, que lhe chamava
imoral e pérfido, e dizia que a aventura era sabida de todos. Camilo
teve medo, e, para desviar as suspeitas, começou a rarear as visitas à casa
de Vilela. Este notou-lhe as ausências. Camilo respondeu que o motivo
era uma paixão frívola de rapaz. Candura gerou astúcia.
As ausências prolongaram-se, e as visitas cessaram inteiramente. Pode
ser que entrasse também nisso um pouco de amor-próprio, uma intenção
de diminuir os obséquios do marido, para tornar menos dura a aleivosia
do ato.
Foi por esse tempo que Rita, desconfiada e medrosa, correu à cartomante
para consultá-la sobre a verdadeira causa do procedimento de Camilo.
Vimos que a cartomante restituiu-lhe a confiança, e que o rapaz repreendeu-a
por ter feito o que fez. Correram ainda algumas semanas. Camilo recebeu mais
duas ou três cartas anônimas, tão apaixonadas, que não
podiam ser advertência da virtude, mas despeito de algum pretendente;
tal foi a opinião de Rita, que, por outras palavras mal compostas, formulou
este pensamento: — a virtude é preguiçosa e avara, não
gasta tempo nem papel; só o interesse é ativo e pródigo.
Nem por isso Camilo ficou mais sossegado; temia que o anônimo fosse
ter com Vilela, e a catástrofe viria então sem remédio.
Rita concordou que era possível.
— Bem, disse ela; eu levo os sobrescritos para comparar a letra com
as das cartas que lá aparecerem; se alguma for igual, guardo-a e rasgo-a...
Nenhuma apareceu; mas daí a algum tempo Vilela começou a mostrar-se
sombrio, falando pouco, como desconfiado. Rita deu-se pressa em dizê-lo
ao outro, e sobre isso deliberaram. A opinião dela é que Camilo
devia tornar à casa deles, tatear o marido, e pode ser até que
lhe ouvisse a confidência de algum negócio particular. Camilo
divergia; aparecer depois de tantos meses era confirmar a suspeita ou denúncia.
Mais valia acautelarem-se, sacrificando-se por algumas semanas. Combinaram
os meios de se corresponderem , em caso de necessidade, e separaram-se com
lágrimas.
No dia seguinte, estando na repartição, recebeu Camilo este
bilhete de Vilela: "Vem já, já, à nossa casa; preciso
falar-te sem demora." Era mais de meio-dia. Camilo saiu logo; na rua,
advertiu que teria sido mais natural chamá-lo ao escritório;
por que em casa? Tudo indicava matéria especial, e a letra, fosse realidade
ou ilusão, afigurou-se-lhe trêmula. Ele combinou todas essas cousas
com a notícia da véspera.
— Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem
demora, — repetia ele com os olhos no papel.
Imaginariamente, viu a ponta da orelha de um drama, Rita subjugada e lacrimosa,
Vilela indignado, pegando da pena e escrevendo o bilhete, certo de que ele
acudiria, e esperando-o para matá-lo. Camilo estremeceu, tinha medo:
depois sorriu amarelo, e em todo caso repugnava-lhe a idéia de recuar,
e foi andando. De caminho, lembrou-se de ir a casa; podia achar algum recado
de Rita, que lhe explicasse tudo. Não achou nada, nem ninguém.
Voltou à rua, e a idéia de estarem descobertos parecia-lhe cada
vez mais verossímil; era natural uma denúncia anônima,
até da própria pessoa que o ameaçara antes; podia ser
que Vilela conhecesse agora tudo. A mesma suspensão das suas visitas,
sem motivo aparente, apenas com um pretexto fútil, viria confirmar o
resto.
Camilo ia andando inquieto e nervoso. Não relia o bilhete, mas as palavras
estavam decoradas, diante dos olhos, fixas, ou então, — o que
era ainda pior, — eram-lhe murmuradas ao ouvido, com a própria
voz de Vilela. "Vem já, já, à nossa casa; preciso
falar-te sem demora." Ditas assim, pela voz do outro, tinham um tom de
mistério e ameaça. Vem, já, já, para quê?
Era perto de uma hora da tarde. A comoção crescia de minuto a
minuto. Tanto imaginou o que se iria passar, que chegou a crê-lo e vê-lo.
Positivamente, tinha medo. Entrou a cogitar em ir armado, considerando que,
se nada houvesse, nada perdia, e a precaução era útil.
Logo depois rejeitava a idéia, vexado de si mesmo, e seguia, picando
o passo, na direção do Largo da Carioca, para entrar num tílburi.
Chegou, entrou e mandou seguir a trote largo.
"Quanto antes, melhor, pensou ele; não posso estar assim..."
Mas o mesmo trote do cavalo veio agravar-lhe a comoção. O tempo
voava, e ele não tardaria a entestar com o perigo. Quase no fim da Rua
da Guarda Velha, o tílburi teve de parar, a rua estava atravancada com
uma carroça, que caíra. Camilo, em si mesmo, estimou o obstáculo,
e esperou. No fim de cinco minutos, reparou que ao lado, à esquerda,
ao pé do tílburi, ficava a casa da cartomante, a quem Rita consultara
uma vez, e nunca ele desejou tanto crer na lição das cartas.
Olhou, viu as janelas fechadas, quando todas as outras estavam abertas e pejadas
de curiosos do incidente da rua. Dir-se-ia a morada do indiferente Destino.
Camilo reclinou-se no tílburi, para não ver nada. A agitação
dele era grande, extraordinária, e do fundo das camadas morais emergiam
alguns fantasmas de outro tempo, as velhas crenças, as superstições
antigas. O cocheiro propôs-lhe voltar à primeira travessa, e ir
por outro caminho: ele respondeu que não, que esperasse. E inclinava-se
para fitar a casa... Depois fez um gesto incrédulo: era a idéia
de ouvir a cartomante, que lhe passava ao longe, muito longe, com vastas asas
cinzentas; desapareceu, reapareceu, e tornou a esvair-se no cérebro;
mas daí a pouco moveu outra vez as asas, mais perto, fazendo uns giros
concêntricos... Na rua, gritavam os homens, safando a carroça:
— Anda! agora! empurra! vá! vá!
Daí a pouco estaria removido o obstáculo. Camilo fechava os
olhos, pensava em outras cousas: mas a voz do marido sussurrava-lhe a orelhas
as palavras da carta: "Vem, já, já..." E ele via as
contorções do drama e tremia. A casa olhava para ele. As pernas
queriam descer e entrar . Camilo achou-se diante de um longo véu opaco...
pensou rapidamente no inexplicável de tantas cousas. A voz da mãe
repetia-lhe uma porção de casos extraordinários: e a mesma
frase do príncipe de Dinamarca reboava-lhe dentro: "Há mais
cousas no céu e na terra do que sonha a filosofia... " Que perdia
ele, se... ?
Deu por si na calçada, ao pé da porta: disse ao cocheiro que
esperasse, e rápido enfiou pelo corredor, e subiu a escada. A luz era
pouca, os degraus comidos dos pés, o corrimão pegajoso; mas ele
não, viu nem sentiu nada. Trepou e bateu. Não aparecendo ninguém,
teve idéia de descer; mas era tarde, a curiosidade fustigava-lhe o sangue,
as fontes latejavam-lhe; ele tornou a bater uma, duas, três pancadas.
Veio uma mulher; era a cartomante. Camilo disse que ia consultá-la,
ela fê-lo entrar. Dali subiram ao sótão, por uma escada
ainda pior que a primeira e mais escura. Em cima, havia uma salinha, mal alumiada
por uma janela, que dava para o telhado dos fundos. Velhos trastes, paredes
sombrias, um ar de pobreza, que antes aumentava do que destruía o prestígio.
A cartomante fê-lo sentar diante da mesa, e sentou-se do lado oposto,
com as costas para a janela, de maneira que a pouca luz de fora batia em cheio
no rosto de Camilo. Abriu uma gaveta e tirou um baralho de cartas compridas
e enxovalhadas. Enquanto as baralhava, rapidamente, olhava para ele, não
de rosto, mas por baixo dos olhos. Era uma mulher de quarenta anos, italiana,
morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos. Voltou três cartas
sobre a mesa, e disse-lhe:
— Vejamos primeiro o que é que o traz aqui. O senhor tem um grande
susto...
Camilo, maravilhado, fez um gesto afirmativo.
— E quer saber, continuou ela, se lhe acontecerá alguma cousa
ou não...
— A mim e a ela, explicou vivamente ele.
A cartomante não sorriu: disse-lhe só que esperasse. Rápido
pegou outra vez das cartas e baralhou-as, com os longos dedos finos, de unhas
descuradas; baralhou-as bem, transpôs os maços, uma, duas. três
vezes; depois começou a estendê-las. Camilo tinha os olhos nela.
curioso e ansioso.
— As cartas dizem-me...
Camilo inclinou-se para beber uma a uma as palavras. Então ela declarou-lhe
que não tivesse medo de nada. Nada aconteceria nem a um nem a outro;
ele, o terceiro, ignorava tudo. Não obstante, era indispensável
muita cautela: ferviam invejas e despeitos. Falou-lhe do amor que os ligava,
da beleza de Rita. . . Camilo estava deslumbrado. A cartomante acabou, recolheu
as cartas e fechou-as na gaveta.
— A senhora restituiu-me a paz ao espírito, disse ele estendendo
a mão por cima da mesa e apertando a da cartomante.
Esta levantou-se, rindo.
— Vá, disse ela; vá, ragazzo innamorato...
E de pé, com o dedo indicador, tocou-lhe na testa. Camilo estremeceu,
como se fosse a mão da própria sibila, e levantou-se também.
A cartomante foi à cômoda, sobre a qual estava um prato com passas,
tirou um cacho destas, começou a despencá-las e comê-las,
mostrando duas fileiras de dentes que desmentiam as unhas. Nessa mesma ação
comum, a mulher tinha um ar particular. Camilo, ansioso por sair, não
sabia como pagasse; ignorava o preço.
— Passas custam dinheiro, disse ele afinal, tirando a carteira. Quantas
quer mandar buscar?
— Pergunte ao seu coração, respondeu ela.
Camilo tirou uma nota de dez mil-réis, e deu-lha. Os olhos da cartomante
fuzilaram. O preço usual era dois mil-réis.
— Vejo bem que o senhor gosta muito dela... E faz bem; ela gosta muito
do senhor. Vá, vá, tranqüilo. Olhe a escada, é escura;
ponha o chapéu...
A cartomante tinha já guardado a nota na algibeira, e descia com ele,
falando, com um leve sotaque. Camilo despediu-se dela embaixo, e desceu a escada
que levava à rua, enquanto a cartomante, alegre com a paga, tornava
acima, cantarolando uma barcarola. Camilo achou o tílburi esperando;
a rua estava livre. Entrou e seguiu a trote largo.
Tudo lhe parecia agora melhor, as outras cousas traziam outro aspecto, o céu
estava límpido e as caras joviais. Chegou a rir dos seus receios, que
chamou pueris; recordou os termos da carta de Vilela e reconheceu que eram íntimos
e familiares. Onde é que ele lhe descobrira a ameaça? Advertiu
também que eram urgentes, e que fizera mal em demorar-se tanto; podia
ser algum negócio grave e gravíssimo.
— Vamos, vamos depressa, repetia ele ao cocheiro.
E consigo, para explicar a demora ao amigo, engenhou qualquer cousa; parece
que formou também o plano de aproveitar o incidente para tornar à antiga
assiduidade... De volta com os planos, reboavam-lhe na alma as palavras da
cartomante. Em verdade, ela adivinhara o objeto da consulta, o estado dele,
a existência de um terceiro; por que não adivinharia o resto?
O presente que se ignora vale o futuro. Era assim, lentas e contínuas,
que as velhas crenças do rapaz iam tornando ao de cima, e o mistério
empolgava-o com as unhas de ferro. Às vezes queria rir, e ria de si
mesmo, algo vexado; mas a mulher, as cartas, as palavras secas e afirmativas,
a exortação: — Vá, vá, ragazzo innamorato;
e no fim, ao longe, a barcarola da despedida, lenta e graciosa, tais eram os
elementos recentes, que formavam, com os antigos, uma fé nova e vivaz.
A verdade é que o coração ia alegre e impaciente, pensando
nas horas felizes de outrora e nas que haviam de vir. Ao passar pela Glória,
Camilo olhou para o mar, estendeu os olhos para fora, até onde a água
e o céu dão um abraço infinito, e teve assim uma sensação
do futuro, longo, longo, interminável.
Daí a pouco chegou à casa de Vilela. Apeou-se, empurrou a porta
de ferro do jardim e entrou. A casa estava silenciosa. Subiu os seis degraus
de pedra, e mal teve tempo de bater, a porta abriu-se, e apareceu-lhe Vilela.
— Desculpa, não pude vir mais cedo; que há?
Vilela não lhe respondeu; tinha as feições decompostas;
fez-lhe sinal, e foram para uma saleta interior. Entrando, Camilo não
pôde sufocar um grito de terror: — ao fundo sobre o canapé,
estava Rita morta e ensangüentada. Vilela pegou-o pela gola, e, com dois
tiros de revólver, estirou-o morto no chão.
  
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