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A Carta - Pero Vaz de Caminha
A carta que Pero Vaz de Caminha escreveu para D. Manuel, o rei de Portugal
na época do descobrimento do Brasil, relata com detalhes a chegada dos
portugueses no Brasil, como foram os primeiros contatos destes com os indígenas
e, a partir desta carta, podemos perceber as intenções portuguesas
quanto à nova terra e, o que seria dela depois de então. A partida
frota portuguesa de Belém-Portugal ocorreu no dia 9 de março,
a chegada às Canárias no dia 14 do mesmo mês, e no dia
22 chegaram à ilha de São Nicolau. No dia 21 de abril, toparam
com sinais de terra, o que eles chamam de botelho, espécie de ervas
compridas. No dia seguinte, houveram vista de terra, que foi chamada de Terra
De Vera Cruz, a qual tinha um monte alto, que recebeu o nome de o Monte Pascoal.
Avistaram os primeiros habitantes da terra, os quais eram, de acordo com a
descrição de Caminha, pardos, um tanto avermelhados, de bons
rostos e narizes, nus, traziam arcos e setas, o beiço de baixo furado
com um osso metido nele, cabelos corredios e corpos pintados. Com eles tentaram
estabelecer um primeiro contato, o que foi uma surpresa, pois um deles começou
a apontar para o colar de ouro do capitão da frota e, em seguida, para
a terra, como se quisesse dizer que naquela terra havia ouro. A mesma coisa
ocorreu com o castiçal de prata e o papagaio. Ao verem coisas que não
conheciam, faziam sinais, dando-se a entender que queriam propor uma troca.
Conclui-se então, que desta forma começou a troca de ouro, prata
e madeira, por quinquilharias vindas da Europa. Os portugueses traziam os indígenas
para as embarcações, a fim de estabelecer um melhor contato com
os indígenas. No início, eles mostraram-se muito esquivos, mas
com o passar dos dias, passaram a conviver mais com os portugueses e, até mesmo, à ajudá-los
no que precisavam e levá-los às suas aldeias. Os portugueses
realizaram uma missa, construíram uma enorme cruz. Tudo para mostrar
aos nativos a acatamento que tinham pela cruz, ou melhor, pela religião.
Desde já, possuíam a vontade de convertê-los à igreja,
tendo em vista, sua inocência, já que faziam tudo o que os portugueses
faziam ou mandavam... A intenção de dominá-los é facilmente
observada na seguinte passagem : "Contudo, o melhor fruto que dela se
pode tirar parece-me que será salvar esta gente."
Carta da íntegra:
Senhor,
posto que o Capitão-mor desta Vossa frota, e assim os outros capitães
escrevam a Vossa Alteza a notícia do descoberta desta Vossa terra nova,
que se agora nesta navegação achou, não deixarei de também
dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que
- para o bem contar e falar - o saiba pior que todos fazer!
Todavia tome Vossa Alteza minha ignorância por boa vontade, a qual bem
certo creia que, para aformosentar nem afear, aqui não há de
pôr mais do que aquilo que vi e me pareceu.
Da marinhagem e das singraduras do caminho não darei aqui conta a Vossa
Alteza - porque o não saberei fazer - e os pilotos devem ter este cuidado.
E portanto, Senhor, do que hei de falar começo:
E digo quê:
A partida de Belém foi - como Vossa Alteza sabe, segunda-feira 9 de
março. E sábado, 14 do dito mês, entre as 8 e 9 horas,
nos achamos entre as Canárias, mais perto da Grande Canária.
E ali andamos todo aquele dia em calma, à vista delas, obra de três
a quatro léguas. E domingo, 22 do dito mês, às dez horas
mais ou menos, houvemos vista das ilhas de Cabo Verde, a saber da ilha de São
Nicolau, segundo o dito de Pero Escolar, piloto.
Na noite seguinte à segunda-feira amanheceu, se perdeu da frota Vasco
de Ataíde com a sua nau, sem haver tempo forte ou contrário para
poder ser!
Fez o capitão suas diligências para o achar, em umas e outras
partes. Mas... não apareceu mais !
E assim seguimos nosso caminho, por este mar de longo, até que terça-feira
das Oitavas de Páscoa, que foram 21 dias de abril, topamos alguns sinais
de terra, estando da dita Ilha -- segundo os pilotos diziam, obra de 660 ou
670 léguas -- os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que
os mareantes chamam botelho, e assim mesmo outras a que dão o nome de
rabo-de-asno. E quarta-feira seguinte, pela manhã, topamos aves a que
chamam furabuchos.
Neste mesmo dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! A saber,
primeiramente de um grande monte, muito alto e redondo; e de outras serras
mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos; ao qual
monte alto o capitão pôs o nome de O Monte Pascoal e à terra
A Terra de Vera Cruz!
Mandou lançar o prumo. Acharam vinte e cinco braças. E ao sol-posto
umas seis léguas da terra, lançamos ancoras, em dezenove braças
-- ancoragem limpa. Ali ficamo-nos toda aquela noite. E quinta-feira, pela
manhã, fizemos vela e seguimos em direitura à terra, indo os
navios pequenos diante - por dezessete, dezesseis, quinze, catorze, doze, nove
braças - até meia légua da terra, onde todos lançamos
ancoras, em frente da boca de um rio. E chegaríamos a esta ancoragem às
dez horas, pouco mais ou menos.
E dali avistamos homens que andavam pela praia, uns sete ou oito, segundo disseram
os navios pequenos que chegaram primeiro.
Então lançamos fora os batéis e esquifes. E logo vieram
todos os capitães das naus a esta nau do Capitão-mor. E ali falaram.
E o Capitão mandou em terra a Nicolau Coelho para ver aquele rio. E
tanto que ele começou a ir-se para lá, acudiram pela praia homens
aos dois e aos três, de maneira que, quando o batel chegou à boca
do rio, já lá estavam dezoito ou vinte.
Pardos, nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Traziam arcos
nas mãos, e suas setas. Vinham todos rijamente em direção
ao batel. E Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os
depuseram. Mas não pôde deles haver fala nem entendimento que
aproveitasse, por o mar quebrar na costa. Somente arremessou-lhe um barrete
vermelho e uma carapuça de linho que levava na cabeça, e um sombreiro
preto. E um deles lhe arremessou um sombreiro de penas de ave, compridas, com
uma copazinha de penas vermelhas e pardas, como de papagaio. E outro lhe deu
um ramal grande de continhas brancas, miúdas que querem parecer de aljôfar,
as quais peças creio que o Capitão manda a Vossa Alteza. E com
isto se volveu às naus por ser tarde e não poder haver deles
mais fala, por causa do mar.
À
noite seguinte ventou tanto sueste com chuvaradas que fez caçar as naus.
E especialmente a Capitânia. E sexta pela manhã, às oito
horas, pouco mais ou menos, por conselho dos pilotos, mandou o Capitão
levantar ancoras e fazer vela. E fomos de longo da costa, com os batéis
e esquifes amarrados na popa, em direção norte, para ver se achávamos
alguma abrigada e bom pouso, onde nós ficássemos, para tomar água
e lenha. Não por nos já minguar, mas por nos prevenirmos aqui.
E quando fizemos vela estariam já na praia assentados perto do rio obra
de sessenta ou setenta homens que se haviam juntado ali aos poucos. Fomos ao
longo, e mandou o Capitão aos navios pequenos que fossem mais chegados à terra
e, se achassem pouso seguro para as naus, que amainassem.
E velejando nós pela costa, na distância de dez léguas
do sítio onde tínhamos levantado ferro, acharam os ditos navios
pequenos um recife com um porto dentro, muito bom e muito seguro, com uma mui
larga entrada. E meteram-se dentro e amainaram. E as naus foram-se chegando,
atrás deles. E um pouco antes de sol-pôsto amainaram também,
talvez a uma légua do recife, e ancoraram a onze braças.
E estando Afonso Lopez, nosso piloto, em um daqueles navios pequenos, foi,
por mandado do Capitão, por ser homem vivo e destro para isso, meter-se
logo no esquife a sondar o porto dentro. E tomou dois daqueles homens da terra
que estavam numa almadia: mancebos e de bons corpos. Um deles trazia um arco,
e seis ou sete setas. E na praia andavam muitos com seus arcos e setas; mas
não os aproveitou. Logo, já de noite, levou-os à Capitania,
onde foram recebidos com muito prazer e festa.
A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhados,
de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma.
Nem fazem mais caso de encobrir ou deixa de encobrir suas vergonhas do que
de mostrar a cara. Acerca disso são de grande inocência. Ambos
traziam o beiço de baixo furado e metido nele um osso verdadeiro, de
comprimento de uma mão travessa, e da grossura de um fuso de algodão,
agudo na ponta como um furador. Metem-nos pela parte de dentro do beiço;
e a parte que lhes fica entre o beiço e os dentes é feita a modo
de roque de xadrez. E trazem-no ali encaixado de sorte que não os magoa,
nem lhes põe estorvo no falar, nem no comer e beber.
Os cabelos deles são corredios. E andavam tosquiados, de tosquia alta
antes do que sobre-pente, de boa grandeza, rapados todavia por cima das orelhas.
E um deles trazia por baixo da solapa, de fonte a fonte, na parte detrás,
uma espécie de cabeleira, de penas de ave amarela, que seria do comprimento
de um coto, mui basta e mui cerrada, que lhe cobria o toutiço e as orelhas.
E andava pegada aos cabelos, pena por pena, com uma confeição
branda como, de maneira tal que a cabeleira era mui redonda e mui basta, e
mui igual, e não fazia míngua mais lavagem para a levantar.
O Capitão, quando eles vieram, estava sentado em uma cadeira, aos pés
uma alcatifa por estrado; e bem vestido, com um colar de ouro, mui grande,
ao pescoço. E Sancho de Tovar, e Simão de Miranda, e Nicolau
Coelho, e Aires Corrêa, e nós outros que aqui na nau com ele íamos,
sentados no chão, nessa alcatifa. Acenderam-se tochas. E eles entraram.
Mas nem sinal de cortesia fizeram, nem de falar ao Capitão; nem a alguém.
Todavia um deles fitou o colar do Capitão, e começou a fazer
acenos com a mão em direção à terra, e depois para
o colar, como se quisesse dizer-nos que havia ouro na terra. E também
olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e
novamente para o castiçal, como se lá também houvesse
prata!
Mostraram-lhes um papagaio pardo que o Capitão traz consigo; tomaram-no
logo na mão e acenaram para a terra, como se os houvesse ali.
Mostraram-lhes um carneiro; não fizeram caso dele.
Mostraram-lhes uma galinha; quase tiveram medo dela, e não lhe queriam
pôr a mão. Depois lhe pegaram, mas como espantados.
Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, confeitos, fartéis,
mel, figos passados. Não quiseram comer daquilo quase nada; e se provavam
alguma coisa, logo a lançavam fora.
Trouxeram-lhes vinho em uma taça; mal lhe puseram a boca; não
gostaram dele nada, nem quiseram mais.
Trouxeram-lhes água , provaram cada um o seu bochecho, mas não
beberam; apenas lavaram as bocas e lançaram-na fora.
Viu um deles umas contas de rosário, brancas; fez sinal que lhas dessem,
e folgou muito com elas, e lançou-as ao pescoço; e depois tirou-as
e meteu-as em volta do braço, e acenava para a terra e novamente para
as contas e para o colar do Capitão, como se dariam ouro por aquilo.
Isto tomávamos nós nesse sentido, por assim o desejarmos! Mas
se ele queria dizer que levaria as contas e mais o colar, isto não queríamos
nós entender, por que lho não havíamos de dar! E depois
tornou as contas a quem lhas dera. E então estiraram-se de costas na
alcatifa, a dormir sem procurarem maneiras de encobrir suas vergonhas, as quais
não eram fanadas; e as cabeleiras delas estavam bem rapadas e feitas.
O Capitão mandou pôr por baixo da cabeça de cada um seu
coxim; e o da cabeleira esforçava-se por não a estragar. E deitaram
um manto por cima deles; e consentindo, aconchegaram-se e adormeceram.
Sábado pela manhã mandou o Capitão fazer vela, fomos demandar
a entrada, a qual era mui larga e tinha seis a sete braças de fundo.
E entraram todas as naus dentro, e ancoraram em cinco ou seis braças
-- ancoradouro que é tão grande e tão formoso de dentro,
e tão seguro que podem ficar nele mais de duzentos navios e naus. E
tanto que as naus foram distribuídas e ancoradas, vieram os capitães
todos a esta nau do Capitão-mor. E daqui mandou o Capitão que
Nicolau Coelho e Bartolomeu Dias fossem em terra e levassem aqueles dois homens,
e os deixassem ir com seu arco e setas, aos quais mandou dar a cada um uma
camisa nova e uma carapuça vermelha e um rosário de contas brancas
de osso, que foram levando nos braços, e um cascavel e uma campainha.
E mandou com eles, para lá ficar, um mancebo degredado, criado de dom
João Telo, de nome Afonso Ribeiro, para lá andar com eles e saber
de seu viver e maneiras. E a mim mandou que fosse com Nicolau Coelho. Fomos
assim de frecha direitos à praia. Ali acudiram logo perto de duzentos
homens, todos nus, com arcos e setas nas mãos. Aqueles que nós
levamos acenaram-lhes que se afastassem e depusessem os arcos. E eles os depuseram.
Mas não se afastaram muito. E mal tinham pousado seus arcos quando saíram
os que nós levávamos, e o mancebo degredado com eles. E saídos
não pararam mais; nem esperavam um pelo outro, mas antes corriam a quem
mais correria. E passaram um rio que aí corre, de água doce,
de muita água que lhes dava pela braga. E muitos outros com eles. E
foram assim correndo para além do rio entre umas moitas de palmeiras
onde estavam outros. E ali pararam. E naquilo tinha ido o degredado com um
homem que, logo ao sair do batel, o agasalhou e levou até lá.
Mas logo o tornaram a nós. E com ele vieram os outros que nós
leváramos, os quais vinham já nus e sem carapuças.
E então se começaram de chegar muitos; e entravam pela beira
do mar para os batéis, até que mais não podiam. E traziam
cabaças d'água, e tomavam alguns barris que nós levávamos
e enchiam-nos de água e traziam-nos aos batéis. Não que
eles de todo chegassem a bordo do batel. Mas junto a ele, lançavam-nos
da mão. E nós tomávamo-los. E pediam que lhes dessem alguma
coisa.
Levava Nicolau Coelho cascavéis e manilhas. E a uns dava um cascavel,
e a outros uma manilha, de maneira que com aquela encarna quase que nos queriam
dar a mão. Davam-nos daqueles arcos e setas em troca de sombreiros e
carapuças de linho, e de qualquer coisa que a gente lhes queria dar.
Dali se partiram os outros, dois mancebos, que não os vimos mais.
Dos que ali andavam, muitos -- quase a maior parte --traziam aqueles bicos
de osso nos beiços.
E alguns, que andavam sem eles, traziam os beiços furados e nos buracos
traziam uns espelhos de pau, que pareciam espelhos de borracha. E alguns deles
traziam três daqueles bicos, a saber um no meio, e os dois nos cabos.
E andavam lá outros, quartejados de cores, a saber metade deles da sua
própria cor, e metade de tintura preta, um tanto azulada; e outros quartejados
d'escaques.
Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem novinhas e gentis,
com cabelos muito pretos e compridos pelas costas; e suas vergonhas, tão
altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as
nós muito bem olharmos, não se envergonhavam.
Ali por então não houve mais fala ou entendimento com eles, por
a barbana deles ser tamanha que se não entendia nem ouvia ninguém.
Acenamos-lhes que se fossem. E assim o fizeram e passaram-se para além
do rio. E saíram três ou quatro homens nossos dos batéis,
e encheram não sei quantos barris d'água que nós levávamos.
E tornamo-nos às naus. E quando assim vínhamos, acenaram-nos
que voltássemos. Voltamos, e eles mandaram o degredado e não
quiseram que ficasse lá com eles, o qual levava uma bacia pequena e
duas ou três carapuças vermelhas para lá as dar ao senhor,
se o lá houvesse. Não trataram de lhe tirar coisa alguma, antes
mandaram-no com tudo. Mas então Bartolomeu Dias o fez outra vez tornar,
que lhe desse aquilo. E ele tornou e deu aquilo, em vista de nós, a
aquele que o da primeira agasalhara. E então veio-se, e nós levamo-lo.
Esse que o agasalhou era já de idade, e andava por galanteria, cheio
de penas, pegadas pelo corpo, que parecia seteado como São Sebastião.
Outros traziam carapuças de penas amarelas; e outros, de vermelhas;
e outros de verdes. E uma daquelas moças era toda tingida de baixo a
cima, daquela tintura e certo era tão bem feita e tão redonda,
e sua vergonha tão graciosa que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhe
tais feições envergonhara, por não terem as suas como
ela. Nenhum deles era fanado, mas todos assim como nós.
E com isto nos tornamos, e eles foram-se.
À
tarde saiu o Capitão-mor em seu batel com todos nós outros capitães
das naus em seus batéis a folgar pela baía, perto da praia. Mas
ninguém saiu em terra, por o Capitão o não querer, apesar
de ninguém estar nela. Apenas saiu -- ele com todos nós -- em
um ilhéu grande que está na baía, o qual, baixa-mar, fica
mui vazio. Com tudo está de todas as partes cercado de água,
de sorte que ninguém lá pode ir, a não ser de barco ou
a nado. Ali folgou ele, e todos nós, bem uma hora e meia. E pescaram
lá, andando alguns marinheiros com um chinchorro; e mataram peixe miúdo,
não muito. E depois volvemo-nos às naus, já bem noite.
Ao domingo de Pascoela pela manhã, determinou o Capitão ir ouvir
missa e sermão naquele ilhéu. E mandou a todos os capitães
que se arranjassem nos batéis e fossem com ele. E assim foi feito. Mandou
armar um pavilhão naquele ilhéu, e dentro levantar um altar mui
bem arranjado. E ali com todos nós outros fez dizer missa, a qual disse
o padre frei Henrique, em voz entoada, e oficiada com aquela mesma voz pelos
outros padres e sacerdotes que todos assistiram, a qual missa, segundo meu
parecer, foi ouvida por todos com muito prazer e devoção.
Ali estava com o Capitão a bandeira de Cristo, com que saíra
de Belém, a qual esteve sempre bem alta, da parte do Evangelho.
Acabada a missa, despiu-se o padre e subiu a uma cadeira alta; e nós
todos lançados por essa areia. E pregou uma solene e proveitosa pregação,
da história evangélica; e no fim tratou da nossa vida, e do achamento
desta terra, referindo-se à Cruz, sob cuja obediência viemos,
que veio muito a propósito, e fez muita devoção.
Enquanto assistimos à missa e ao sermão, estaria na praia outra
tanta gente, pouco mais ou menos, como a de ontem, com seus arcos e setas,
e andava folgando. E olhando-nos, sentaram. E depois de acabada a missa, quando
nós sentados atendíamos a pregação, levantaram-se
muitos deles e tangeram corno ou buzina e começaram a saltar e dançar
um pedaço. E alguns deles se metiam em almadias -- duas ou três
que lá tinham -- as quais não são feitas como as que eu
vi; apenas são três traves, atadas juntas. E ali se metiam quatro
ou cinco, ou esses que queriam, não se afastando quase nada da terra,
só até onde podiam tomar pé.
Acabada a pregação encaminhou-se o Capitão, com todos
nós, para os batéis, com nossa bandeira alta. Embarcamos e fomos
indo todos em direção à terra para passarmos ao longo
por onde eles estavam, indo na dianteira, por ordem do Capitão, Bartolomeu
Dias em seu esquife, com um pau de uma almadia que lhes o mar levara, para
o entregar a eles. E nós todos trás dele, a distância de
um tiro de pedra.
Como viram o esquife de Bartolomeu Dias, chegaram-se logo todos à água,
metendo-se nela até onde mais podiam. Acenaram-lhes que pousassem os
arcos e muitos deles os iam logo pôr em terra; e outros não os
punham.
Andava lá um que falava muito aos outros, que se afastassem. Mas não
já que a mim me parecesse que lhe tinham respeito ou medo. Este que
os assim andava afastando trazia seu arco e setas. Estava tinto de tintura
vermelha pelos peitos e costas e pelos quadris, coxas e pernas até baixo,
mas os vazios com a barriga e estômago eram de sua própria cor.
E a tintura era tão vermelha que a água lha não comia
nem desfazia. Antes, quando saía da água, era mais vermelho.
Saiu um homem do esquife de Bartolomeu Dias e andava no meio deles, sem implicarem
nada com ele, e muito menos ainda pensavam em fazer-lhe mal. Apenas lhe davam
cabaças d'água; e acenavam aos do esquife que saíssem
em terra. Com isto se volveu Bartolomeu Dias ao Capitão. E viemo-nos às
naus, a comer, tangendo trombetas e gaitas, sem os mais constranger. E eles
tornaram-se a sentar na praia, e assim por então ficaram.
Neste ilhéu, onde fomos ouvir missa e sermão, espraia muito a água
e descobre muita areia e muito cascalho. Enquanto lá estávamos
foram alguns buscar marisco e não no acharam. Mas acharam alguns camarões
grossos e curtos, entre os quais vinha um muito grande e muito grosso; que
em nenhum tempo o vi tamanho. Também acharam cascas de berbigões
e de amêijoas, mas não toparam com nenhuma peça inteira.
E depois de termos comido vieram logo todos os capitães a esta nau,
por ordem do Capitão-mor, com os quais ele se aportou; e eu na companhia.
E perguntou a todos se nos parecia bem mandar a nova do achamento desta terra
a Vossa Alteza pelo navio dos mantimentos, para a melhor mandar descobrir e
saber dela mais do que nós podíamos saber, por irmos na nossa
viagem.
E entre muitas falas que sobre o caso se fizeram foi dito, por todos ou a maior
parte, que seria muito bem. E nisto concordaram. E logo que a resolução
foi tomada, perguntou mais, se seria bem tomar aqui por força um par
destes homens para os mandar a Vossa Alteza, deixando aqui em lugar deles outros
dois destes degredados.
E concordaram em que não era necessário tomar por força
homens, porque costume era dos que assim à força levavam para
alguma parte dizerem que há de tudo quanto lhes perguntam; e que melhor
e muito melhor informação da terra dariam dois homens desses
degredados que aqui deixássemos do que eles dariam se os levassem por
ser gente que ninguém entende. Nem eles cedo aprenderiam a falar para
o saberem tão bem dizer que muito melhor estoutros o não digam
quando cá Vossa Alteza mandar.
E que portanto não cuidássemos de aqui por força tomar
ninguém, nem fazer escândalo; mas sim, para os de todo amansar
e apaziguar, unicamente de deixar aqui os dois degredados quando daqui partíssemos.
E assim ficou determinado por parecer melhor a todos.
Acabado isto, disse o Capitão que fôssemos nos batéis em
terra. E ver-se-ia bem, quejando era o rio. Mas também para folgarmos.
Fomos todos nos batéis em terra, armados; e a bandeira conosco. Eles
andavam ali na praia, à boca do rio, para onde nós íamos;
e, antes que chegássemos, pelo ensino que dantes tinham, puseram todos
os arcos, e acenaram que saíssemos. Mas, tanto que os batéis
puseram as proas em terra, passaram-se logo todos além do rio, o qual
não é mais ancho que um jogo de mancal. E tanto que desembarcamos,
alguns dos nossos passaram logo o rio, e meteram-se entre eles. E alguns aguardavam;
e outros se afastavam. Com tudo, a coisa era de maneira que todos andavam misturados.
Eles davam desses arcos com suas setas por sombreiros e carapuças de
linho, e por qualquer coisa que lhes davam. Passaram além tantos dos
nossos e andaram assim misturados com eles, que eles se esquivavam, e afastavam-se;
e iam alguns para cima, onde outros estavam. E então o Capitão
fez que o tomassem ao colo dois homens e passou o rio, e fez tornar a todos.
A gente que ali estava não seria mais que aquela do costume. Mas logo
que o Capitão chamou todos para trás, alguns se chegaram a ele,
não por o reconhecerem por Senhor, mas porque a gente, nossa, já passava
para aquém do rio. Ali falavam e traziam muitos arcos e continhas, daquelas
já ditas, e resgatavam-nas por qualquer coisa, de tal maneira que os
nossos levavam dali para as naus muitos arcos, e setas e contas.
E então tornou-se o Capitão para aquém do rio. E logo
acudiram muitos à beira dele.
Ali veríeis galantes, pintados de preto e vermelho, e quartejados, assim
pelos corpos como pelas pernas, que, certo, assim pareciam bem. Também
andavam entre eles quatro ou cinco mulheres, novas, que assim nuas, não
pareciam mal. Entre elas andava uma, com uma coxa, do joelho até o quadril
e a nádega, toda tingida daquela tintura preta; e todo o resto da sua
cor natural. Outra trazia ambos os joelhos com as curvas assim tintas, e também
os colos dos pés; e suas vergonhas tão nuas, e com tanta inocência
assim descobertas, que não havia nisso desvergonha nenhuma.
Também andava lá outra mulher, nova, com um menino ou menina,
atado com um pano aos peitos, de modo que não se lhe viam senão
as perninhas. Mas nas pernas da mãe, e no resto, não havia pano
algum.
Em seguida o Capitão foi subindo ao longo do rio, que corre rente à praia.
E ali esperou por um velho que trazia na mão uma pá de almadia.
Falou, enquanto o Capitão estava com ele, na presença de todos
nós; mas ninguém o entendia, nem ele a nós, por mais coisas
que a gente lhe perguntava com respeito a ouro, porque desejávamos saber
se o havia na terra.
Trazia este velho o beiço tão furado que lhe cabia pelo buraco
um grosso dedo polegar. E trazia metido no buraco uma pedra verde, de nenhum
valor, que fechava por fora aquele buraco. E o Capitão lha fez tirar.
E ele não sei que diabo falava e ia com ela para a boca do Capitão
para lha meter. Estivemos rindo um pouco e dizendo chalaças sobre isso.
E então enfadou-se o Capitão, e deixou-o. E um dos nossos deu-lhe
pela pedra um sombreiro velho; não por ela valer alguma coisa, mas para
amostra. E depois houve-a o Capitão, creio, para mandar com as outras
coisas a Vossa Alteza.
Andamos por aí vendo o ribeiro, o qual é de muita água
e muito boa. Ao longo dele há muitas palmeiras, não muito altas;
e muito bons palmitos. Colhemos e comemos muitos deles.
Depois tornou-se o Capitão para baixo para a boca do rio, onde tínhamos
desembarcado.
E além do rio andavam muitos deles dançando e folgando, uns diante
os outros, sem se tomarem pelas mãos. E faziam-no bem. Passou-se então
para a outra banda do rio Diogo Dias, que fora almoxarife de Sacavém,
o qual é homem gracioso e de prazer. E levou consigo um gaiteiro nosso
com sua gaita. E meteu-se a dançar com eles, tomando-os pelas mãos;
e eles folgavam e riam e andavam com ele muito bem ao som da gaita. Depois
de dançarem fez ali muitas voltas ligeiras, andando no chão,
e salto real, de que se eles espantavam e riam e folgavam muito. E conquanto
com aquilo os segurou e afagou muito, tomavam logo uma esquiveza como de animais
montezes, e foram-se para cima.
E então passou o rio o Capitão com todos nós, e fomos
pela praia, de longo, ao passo que os batéis iam rentes à terra.
E chegamos a uma grande lagoa de água doce que está perto da
praia, porque toda aquela ribeira do mar é apaulada por cima e sai a água
por muitos lugares.
E depois de passarmos o rio, foram uns sete ou oito deles meter-se entre os
marinheiros que se recolhiam aos batéis. E levaram dali um tubarão
que Bartolomeu Dias matou. E lançou-o na praia.
Bastará que até aqui, como quer que se lhes em alguma parte amansassem,
logo de uma mão para outra se esquivavam, como pardais do cevadouro.
Ninguém não lhes ousa falar de rijo para não se esquivarem
mais. E tudo se passa como eles querem - para os bem amansarmos !
Ao velho com quem o Capitão havia falado, deu-lhe uma carapuça
vermelha. E com toda a conversa que com ele houve, e com a carapuça
que lhe deu tanto que se despediu e começou a passar o rio, foi-se logo
recatando. E não quis mais tornar do rio para aquém. Os outros
dois o Capitão teve nas naus, aos quais deu o que já ficou dito,
nunca mais aqui apareceram -- fatos de que deduzo que é gente bestial
e de pouco saber, e por isso tão esquiva. Mas apesar de tudo isso andam
bem curados, e muito limpos. E naquilo ainda mais me convenço que são
como aves, ou alimárias montezinhas, as quais o ar faz melhores penas
e melhor cabelo que às mansas, porque os seus corpos são tão
limpos e tão gordos e tão formosos que não pode ser mais!
E isto me faz presumir que não tem casas nem moradias em que se recolham;
e o ar em que se criam os faz tais. Nós pelo menos não vimos
até agora nenhumas casas, nem coisa que se pareça com elas.
Mandou o Capitão aquele degredado, Afonso Ribeiro, que se fosse outra
vez com eles. E foi; e andou lá um bom pedaço, mas a tarde regressou,
que o fizeram eles vir: e não o quiseram lá consentir. E deram-lhe
arcos e setas; e não lhe tomaram nada do seu. Antes, disse ele, que
lhe tomara um deles umas continhas amarelas que levava e fugia com elas, e
ele se queixou e os outros foram logo após ele, e lhas tomaram e tornaram-lhas
a dar; e então mandaram-no vir. Disse que não vira lá entre
eles senão umas choupaninhas de rama verde e de feteiras muito grandes,
como as de Entre Douro e Minho. E assim nos tornamos às naus, já quase
noite, a dormir.
Segunda-feira, depois de comer, saímos todos em terra a tomar água.
Ali vieram então muitos; mas não tantos como as outras vezes.
E traziam já muito poucos arcos. E estiveram um pouco afastados de nós;
mas depois pouco a pouco misturaram-se conosco; e abraçavam-nos e folgavam;
mas alguns deles se esquivavam logo. Ali davam alguns arcos por folhas de papel
e por alguma carapucinha velha e por qualquer coisa. E de tal maneira se passou
a coisa que bem vinte ou trinta pessoas das nossas se foram com eles para onde
outros muitos deles estavam com moças e mulheres. E trouxeram de lá muitos
arcos e barretes de penas de aves, uns verdes, outros amarelos, dos quais creio
que o Capitão há de mandar uma amostra a Vossa Alteza.
E segundo diziam esses que lá tinham ido, brincaram com eles. Neste
dia os vimos mais de perto e mais à nossa vontade, por andarmos quase
todos misturados: uns andavam quartejados daquelas tinturas, outros de metades,
outros de tanta feição como em pano de ras, e todos com os beiços
furados, muitos com os ossos neles, e bastantes sem ossos. Alguns traziam uns
ouriços verdes, de árvores, que na cor queriam parecer de castanheiras,
embora fossem muito mais pequenos. E estavam cheios de uns grãos vermelhos,
pequeninos que, esmagando-se entre os dedos, se desfaziam na tinta muito vermelha
de que andavam tingidos. E quanto mais se molhavam, tanto mais vermelhos ficavam.
Todos andam rapados até por cima das orelhas; assim mesmo de sobrancelhas
e pestanas.
Trazem todos as testas, de fonte a fonte, tintas de tintura preta, que parece
uma fita preta da largura de dois dedos.
E o Capitão mandou aquele degredado Afonso Ribeiro e a outros dois degredados
que fossem meter-se entre eles; e assim mesmo a Diogo Dias, por ser homem alegre,
com que eles folgavam. E aos degredados ordenou que ficassem lá esta
noite.
Foram-se lá todos; e andaram entre eles. E segundo depois diziam, foram
bem uma légua e meia a uma povoação, em que haveria nove
ou dez casas, as quais diziam que eram tão compridas, cada uma, como
esta nau capitania. E eram de madeira, e das ilhargas de tábuas, e cobertas
de palha, de razoável altura; e todas de um só espaço,
sem repartição alguma, tinham de dentro muitos esteios; e de
esteio a esteio uma rede atada com cabos em cada esteio, altas, em que dormiam.
E de baixo, para se aquentarem, faziam seus fogos. E tinha cada casa duas portas
pequenas, uma numa extremidade, e outra na oposta. E diziam que em cada casa
se recolhiam trinta ou quarenta pessoas, e que assim os encontraram; e que
lhes deram de comer dos alimentos que tinham, a saber muito inhame, e outras
sementes que na terra dá, que eles comem. E como se fazia tarde fizeram-nos
logo todos tornar; e não quiseram que lá ficasse nenhum. E ainda,
segundo diziam, queriam vir com eles. Resgataram lá por cascavéis
e outras coisinhas de pouco valor, que levavam, papagaios vermelhos, muito
grandes e formosos, e dois verdes pequeninos, e carapuças de penas verdes,
e um pano de penas de muitas cores, espécie de tecido assaz belo, segundo
Vossa Alteza todas estas coisas verá, porque o Capitão vo-las
há de mandar, segundo ele disse. E com isto vieram; e nós tornamo-nos às
naus.
Terça-feira, depois de comer, fomos em terra, fazer lenha, e para lavar
roupa. Estavam na praia, quando chegamos, uns sessenta ou setenta, sem arcos
e sem nada. Tanto que chegamos, vieram logo para nós, sem se esquivarem.
E depois acudiram muitos, que seriam bem duzentos, todos sem arcos. E misturaram-se
todos tanto conosco que uns nos ajudavam a acarretar lenha e metê-las
nos batéis. E lutavam com os nossos, e tomavam com prazer. E enquanto
fazíamos a lenha, construíam dois carpinteiros uma grande cruz
de um pau que se ontem para isso cortara. Muitos deles vinham ali estar com
os carpinteiros. E creio que o faziam mais para verem a ferramenta de ferro
com que a faziam do que para verem a cruz, porque eles não tem coisa
que de ferro seja, e cortam sua madeira e paus com pedras feitas como cunhas,
metidas em um pau entre duas talas, mui bem atadas e por tal maneira que andam
fortes, porque lhas viram lá. Era já a conversação
deles conosco tanta que quase nos estorvavam no que havíamos de fazer.
E o Capitão mandou a dois degredados e a Diogo Dias que fossem lá à aldeia
e que de modo algum viessem a dormir às naus, ainda que os mandassem
embora. E assim se foram.
Enquanto andávamos nessa mata a cortar lenha, atravessavam alguns papagaios
essas árvores; verdes uns, e pardos, outros, grandes e pequenos, de
sorte que me parece que haverá muitos nesta terra. Todavia os que vi
não seriam mais que nove ou dez, quando muito. Outras aves não
vimos então, a não ser algumas pombas-seixeiras, e pareceram-me
maiores bastante do que as de Portugal. Vários diziam que viram rolas,
mas eu não as vi. Todavia segundo os arvoredos são mui muitos
e grandes, e de infinitas espécies, não duvido que por esse sertão
haja muitas aves!
E cerca da noite nós volvemos para as naus com nossa lenha.
Eu creio, Senhor, que não dei ainda conta aqui a Vossa Alteza do feitio
de seus arcos e setas. Os arcos são pretos e compridos, e as setas compridas;
e os ferros delas são canas aparadas, conforme Vossa Alteza verá alguns
que creio que o Capitão a Ela há de enviar.
Quarta-feira não fomos em terra, porque o Capitão andou todo
o dia no navio dos mantimentos a despejá-lo e fazer levar às
naus isso que cada um podia levar. Eles acudiram à praia, muitos, segundo
das naus vimos. Seriam perto de trezentos, segundo Sancho de Tovar que para
lá foi. Diogo Dias e Afonso Ribeiro, o degredado, aos quais o Capitão
ontem ordenara que de toda maneira lá dormissem, tinham voltado já de
noite, por eles não quererem que lá ficassem. E traziam papagaios
verdes; e outras aves pretas, quase como pegas, com a diferença de terem
o bico branco e rabos curtos. E quando Sancho de Tovar recolheu à nau,
queriam vir com ele, alguns; mas ele não admitiu senão dois mancebos,
bem dispostos e homens de prol. Mandou pensar e curá-los mui bem essa
noite. E comeram toda a ração que lhes deram, e mandou dar-lhes
cama de lençóis, segundo ele disse. E dormiram e folgaram aquela
noite. E não houve mais este dia que para escrever seja.
Quinta-feira, derradeiro de abril, comemos logo, quase pela manhã, e
fomos em terra por mais lenha e água. E em querendo o Capitão
sair desta nau, chegou Sancho de Tovar com seus dois hóspedes. E por
ele ainda não ter comido, puseram-lhe toalhas, e veio-lhe comida. E
comeu. Os hóspedes, sentaram-no cada um em sua cadeira. E de tudo quanto
lhes deram, comeram mui bem, especialmente lacão cozido frio, e arroz.
Não lhes deram vinho por Sancho de Tovar dizer que o não bebiam
bem.
Acabado o comer, metemo-nos todos no batel, e eles conosco. Deu um grumete
a um deles uma armadura grande de porco montês, bem revolta. E logo que
a tomou meteu-a no beiço; e porque se lhe não queria segurar,
deram-lhe uma pouca de cera vermelha. E ele ajeitou-lhe seu adereço
da parte de trás de sorte que segurasse, e meteu-a no beiço,
assim revolta para cima; e ia tão contente com ela, como se tivesse
uma grande jóia. E tanto que saímos em terra, foi-se logo com
ela. E não tornou a aparecer lá.
Andariam na praia, quando saímos, oito ou dez deles; e de aí a
pouco começaram a vir. E parece-me que viriam este dia a praia quatrocentos
ou quatrocentos e cinqüenta. Alguns deles traziam arcos e setas; e deram
tudo em troca de carapuças e por qualquer coisa que lhes davam. Comiam
conosco do que lhes dávamos, e alguns deles bebiam vinho, ao passo que
outros o não podiam beber. Mas quer-me parecer que, se os acostumarem,
o hão de beber de boa vontade! Andavam todos tão bem dispostos
e tão bem feitos e galantes com suas pinturas que agradavam. Acarretavam
dessa lenha quanta podiam, com mil boas vontades, e levavam-na aos batéis.
E estavam já mais mansos e seguros entre nós do que nós
estávamos entre eles.
Foi o Capitão com alguns de nós um pedaço por este arvoredo
até um ribeiro grande, e de muita água, que ao nosso parecer é o
mesmo que vem ter à praia, em que nós tomamos água. Ali
descansamos um pedaço, bebendo e folgando, ao longo dele, entre esse
arvoredo que é tanto e tamanho e tão basto e de tanta qualidade
de folhagem que não se pode calcular. Há lá muitas palmeiras,
de que colhemos muitos e bons palmitos.
Ao sairmos do batel, disse o Capitão que seria bom irmos em direitura à cruz
que estava encostada a uma árvore, junto ao rio, a fim de ser colocada
amanhã, sexta-feira, e que nos puséssemos todos de joelhos e
a beijássemos para eles verem o acatamento que lhe tínhamos.
E assim fizemos. E a esses dez ou doze que lá estavam, acenaram-lhes
que fizessem o mesmo; e logo foram todos beijá-la.
Parece-me gente de tal inocência que, se nós entendêssemos
a sua fala e eles a nossa, seriam logo cristãos, visto que não
têm nem entendem crença alguma, segundo as aparências. E
portanto se os degredados que aqui hão de ficar aprenderem bem a sua
fala e os entenderem, não duvido que eles, segundo a santa tenção
de Vossa Alteza, se farão cristãos e hão de crer na nossa
santa fé, à qual praza a Nosso Senhor que os traga, porque certamente
esta gente é boa e de bela simplicidade. E imprimir-se-á facilmente
neles qualquer cunho que lhe quiserem dar, uma vez que Nosso Senhor lhes deu
bons corpos e bons rostos, como a homens bons. E o Ele nos para aqui trazer
creio que não foi sem causa. E portanto Vossa Alteza, pois tanto deseja
acrescentar a santa fé católica, deve cuidar da salvação
deles. E prazerá a Deus que com pouco trabalho seja assim!
Eles não lavram nem criam. Nem há aqui boi ou vaca, cabra, ovelha
ou galinha, ou qualquer outro animal que esteja acostumado ao viver do homem.
E não comem senão deste inhame, de que aqui há muito,
e dessas sementes e frutos que a terra e as árvores de si deitam. E
com isto andam tais e tão rijos e tão nédios que o não
somos nós tanto, com quanto trigo e legumes comemos.
Nesse dia, enquanto ali andavam, dançaram e bailaram sempre com os nossos,
ao som de um tamboril nosso, como se fossem mais amigos nossos do que nós
seus. Se lhes a gente acenava, se queriam vir às naus, aprontavam-se
logo para isso, de modo tal, que se os convidáramos a todos, todos vieram.
Porém não levamos esta noite às naus senão quatro
ou cinco; a saber, o Capitão-mor, dois; e Simão de Miranda, um
que já trazia por pagem; e Aires Gomes a outro, pajem também.
Os que o Capitão trazia, era um deles um dos seus hóspedes que
lhe haviam trazido a primeira vez quando aqui chegamos - o qual veio hoje aqui
vestido na sua camisa, e com ele um seu irmão; e foram esta noite mui
bem agasalhados tanto de comida como de cama, de colchões e lençóis,
para os mais amansar.
E hoje que é sexta-feira, primeiro dia de maio, pela manhã, saímos
em terra com nossa bandeira; e fomos desembarcar acima do rio, contra o sul
onde nos pareceu que seria melhor arvorar a cruz, para melhor ser vista. E
ali marcou o Capitão o sítio onde haviam de fazer a cova para
a fincar. E enquanto a iam abrindo, ele com todos nós outros fomos pela
cruz, rio abaixo onde ela estava. E com os religiosos e sacerdotes que cantavam, à frente,
fomos trazendo-a dali, a modo de procissão. Eram já aí quantidade
deles, uns setenta ou oitenta; e quando nos assim viram chegar, alguns se foram
meter debaixo dela, ajudar-nos. Passamos o rio, ao longo da praia; e fomos
colocá-la onde havia de ficar, que será obra de dois tiros de
besta do rio. Andando-se ali nisto, viriam bem cento cinqüenta, ou mais.
Plantada a cruz, com as armas e a divisa de Vossa Alteza, que primeiro lhe
haviam pregado, armaram altar ao pé dela. Ali disse missa o padre frei
Henrique, a qual foi cantada e oficiada por esses já ditos. Ali estiveram
conosco, a ela, perto de cinqüenta ou sessenta deles, assentados todos
de joelho assim como nós. E quando se veio ao Evangelho, que nos erguemos
todos em pé, com as mãos levantadas, eles se levantaram conosco,
e alçaram as mãos, estando assim até se chegar ao fim;
e então tornaram-se a assentar, como nós. E quando levantaram
a Deus, que nos pusemos de joelhos, eles se puseram assim como nós estávamos,
com as mãos levantadas, e em tal maneira sossegados que certifico a
Vossa Alteza que nos fez muita devoção.
Estiveram assim conosco até acabada a comunhão; e depois da comunhão,
comungaram esses religiosos e sacerdotes; e o Capitão com alguns de
nós outros. E alguns deles, por o Sol ser grande, levantaram-se enquanto
estávamos comungando, e outros estiveram e ficaram. Um deles, homem
de cinqüenta ou cinqüenta e cinco anos, se conservou ali com aqueles
que ficaram. Esse, enquanto assim estávamos, juntava aqueles que ali
tinham ficado, e ainda chamava outros. E andando assim entre eles, falando-lhes,
acenou com o dedo para o altar, e depois mostrou com o dedo para o céu,
como se lhes dissesse alguma coisa de bem; e nós assim o tomamos!
Acabada a missa, tirou o padre a vestimenta de cima, e ficou na alva; e assim
se subiu, junto ao altar, em uma cadeira; e ali nos pregou o Evangelho e dos
Apóstolos cujo é o dia, tratando no fim da pregação
desse vosso prosseguimento tão santo e virtuoso, que nos causou mais
devoção.
Esses que estiveram sempre à pregação estavam assim como
nós olhando para ele. E aquele que digo, chamava alguns, que viessem
ali. Alguns vinham e outros iam-se; e acabada a pregação, trazia
Nicolau Coelho muitas cruzes de estanho com crucifixos, que lhe ficaram ainda
da outra vinda. E houveram por bem que lançassem a cada um sua ao pescoço.
Por essa causa se assentou o padre frei Henrique ao pé da cruz; e ali
lançava a sua a todos -- um a um -- ao pescoço, atada em um fio,
fazendo-lha primeiro beijar e levantar as mãos. Vinham a isso muitos;
e lançavam-nas todas, que seriam obra de quarenta ou cinqüenta.
E isto acabado -- era já bem uma hora depois do meio dia -- viemos às
naus a comer, onde o Capitão trouxe consigo aquele mesmo que fez aos
outros aquele gesto para o altar e para o céu, (e um seu irmão
com ele). A aquele fez muita honra e deu-lhe uma camisa mourisca; e ao outro
uma camisa destoutras.
E segundo o que a mim e a todos pareceu, esta gente, não lhes falece
outra coisa para ser toda cristã, do que entenderem-nos, porque assim
tomavam aquilo que nos viam fazer como nós mesmos; por onde pareceu
a todos que nenhuma idolatria nem adoração têm. E bem creio
que, se Vossa Alteza aqui mandar quem entre eles mais devagar ande, que todos
serão tornados e convertidos ao desejo de Vossa Alteza. E por isso,
se alguém vier, não deixe logo de vir clérigo para os
batizar; porque já então terão mais conhecimentos de nossa
fé, pelos dois degredados que aqui entre eles ficam, os quais hoje também
comungaram.
Entre todos estes que hoje vieram não veio mais que uma mulher, moça,
a qual esteve sempre à missa, à qual deram um pano com que se
cobrisse; e puseram-lho em volta dela. Todavia, ao sentar-se, não se
lembrava de o estender muito para se cobrir. Assim, Senhor, a inocência
desta gente é tal que a de Adão não seria maior -- com
respeito ao pudor.
Ora veja Vossa Alteza quem em tal inocência vive se se convertera, ou
não, se lhe ensinarem o que pertence à sua salvação.
Acabado isto, fomos perante eles beijar a cruz. E despedimo-nos e fomos comer.
Creio, Senhor, que, com estes dois degredados que aqui ficam, ficarão
mais dois grumetes, que esta noite se saíram em terra, desta nau, no
esquife, fugidos, os quais não vieram mais. E cremos que ficarão
aqui porque de manhã, prazendo a Deus fazemos nossa partida daqui.
Esta terra, Senhor, parece-me que, da ponta que mais contra o sul vimos, até à outra
ponta que contra o norte vem, de que nós deste porto houvemos vista,
será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas
de costa. Traz ao longo do mar em algumas partes grandes barreiras, umas vermelhas,
e outras brancas; e a terra de cima toda chã e muito cheia de grandes
arvoredos. De ponta a ponta é toda praia... muito chã e muito
formosa. Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande; porque
a estender olhos, não podíamos ver senão terra e arvoredos
-- terra que nos parecia muito extensa.
Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela,
ou outra coisa de metal, ou ferro; nem lha vimos. Contudo a terra em si é de
muito bons ares frescos e temperados como os de entre Douro-e-Minho, porque
neste tempo d'agora assim os achávamos como os de lá. Águas
são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a
aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem!
Contudo, o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me que será salvar
esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve
lançar. E que não houvesse mais do que ter Vossa Alteza aqui
esta pousada para essa navegação de Calicute bastava. Quanto
mais, disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza
tanto deseja, a saber, acrescentamento da nossa fé!
E desta maneira dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta Vossa terra vi.
E se a um pouco alonguei, Ela me perdoe. Porque o desejo que tinha de Vos tudo
dizer, mo fez pôr assim pelo miúdo.
E pois que, Senhor, é certo que tanto neste cargo que levo como em outra
qualquer coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser
de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê,
mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro
-- o que d'Ela receberei em muita mercê.
Beijo as mãos de Vossa Alteza.
Deste Porto Seguro, da Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro
dia de maio de 1500.
Pero Vaz de Caminha
  
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