Ao tentar falar da cultura e dos rituais
africanos, começamos
a falar do seu mais divergente elemento: os tambores, e falar
deles é uma tarefa difícil. Os tambores não
são apenas tal como os vemos, têm em si conotações
naturais e sobre naturais. Estão ligados aos rituais
que se relacionam às danças, à música
e à literatura.
Os escravos nas américas impuseram seus ritmos
e instrumentos, só que alguns destes escravos já eram
islâmicos. Fato que confunde os estudiosos ao se
aprofundarem na cultura musical africana.
Apesar de tantos serem os ritmos musicais que caracterizam
a África Negra e mesmo sendo expressiva sua cultura
musical nas mais diversas nações das américas
e nas ex-metrópoles, escassa é a bibliografia
para abordar este elemento antropológico.
A civilização negra-africana procede de
uma visão unitária do mundo. Nenhum domínio é autônomo.
O mesmo espírito anima e liga a filosofia, a religião,
a sociedade e a arte negra-africana. As artes na África
Negra estão interligadas: o poema à música,
a música à dança.
Dois mil anos de samba texto de Abdu Ferraz
Entendida a África como uma parte histórica
do globo terrestre se pode falar em mais de 2 mil anos
do Samba A expressão SAMBA é uma forma verbal
de alguns dialetos africanos; para os Bacongos (povos do
norte de Angola) é o imperativo do verbo Cusamba
e para os Kimbundos (povos da região centro-oeste
de Angola) é o infinito do mesmo verbo.
Constata-se que os verbos em dialetos africanos não
têm a terminação em r; na sua maioria
terminam com a vogal a ou com o hiato ia. O verbo SAMBAR é uma
das tentativas de aportuguesar os dialetos africanos. O
fato tem ocorrido de forma espontânea e natural entre
as partes em contato. Neste caso podemos realçar
uma destas palavras dos dialetos africanos aportuguesadas
no Brasil: " BUNDA", o que significa para os
Bacongos "embrulhozinho", "pouquinho", "presente" ...
e para os Kimbundos significa "nádegas".
O ECAMBA seria o nome da dança conhecida como SAMBA;
neste caso teremos que ultrapassar as barreiras culturais
e do tempo, procurar entender a religiosidade dos povos
africanos antes e depois do século XV, período
em que os Europeus se vêem livres do cerco árabe
dando origem ao mercantilismo.
Antes de mais nada, deveria conceituar o EKAMBA como um
dos movimentos físicos mais praticados nos rituais
africanos. Em alguns casos é para revelar a agonia
ou a felicidade. Caracteriza-se por um movimento conhecido
entre os Bacongos de "mityengo" - um dos movimentos
físicos que os Bantos (povos da África Negra)
fazem em atos conjugais, que se resumem no rebolar dos
quadris, característico das danças dos países
da África Central. São feitos com tanta perfeição
e ardência que tornam-se realmente excitantes.
Os Bantos, quando o assunto é falar com Deus "Rezar" - "Sambar",
faziam uma roda em baixo de um njiango (uma sombra artificial),
onde seus tambores soavam o ritmo kitolo (lamentação).
Daí suas mulheres faziam o EKAMBA (sacudiam os quadris
e o corpo todo como se tirassem a poeira do corpo e os
piolhos das cabeças). Na oração, para
os Bantos, não é concebível estar
sentado ou de joelhos, mas sim dançando, se é que
tais movimentos possam ser tidos como dança. Se é,
não seria qualquer dança, mas simplesmente
a EKAMBA.
Até porque entendê-la como dança é deturpar
os fatos (heresia) e não se pode negar que os movimentos
rituais não sejam sensuais, porém não
constituem argumento suficiente para tê-los como
dança. Este conceito de oração "dançada" não
foi apagado pelos colonizadores, tanto que hoje a própria
igreja católica teve que admitir em suas cele-brações
alguns dos ritmos e rituais das celebrações
africanas (antes de Cristo), que se encaixam na primeira
e terceira parte da celebração dominical
Católica Apostólica Romana (celebração
da palavra e ação de graças). Provavelmente,
o episódio do EKAMBA à SAMBA tenha ocorrido
há 400 anos.
Hoje, com mais facilidade, se pode montar o cenário
do colapso, se bem que não se tem referência
exata do tempo e espaço. Possivelmente, algum senhor
tenha visto seus escravos a rezarem e a pergunta não
teria sido outra senão: _ "o que estão
fazendo?" E como estes não podiam se envergonhar
do ato (falar com Deus - Nzambi, Ngana Nzambi, Nzambi Npungu,
Kalunga, Suco, Suco Ngialy, Tata, Otata...)1, certamente
tenham afirmado que estavam a rezar, portanto a sambar.
Para o senhor (colonizador), sem sombras de dúvidas
a expressão Samba tenha significado dançar,
visto que estes faziam o EKAMBA. Para qualquer ocidental
da época tais gestos não passavam de uma
manifestação animalesca (já que não
lhes reconheciam como possuidores de alguma cultura). Hoje é identidade
brasileira. E ainda hoje, uma das províncias de
Angola, UÍGE, habitado pelos Bacongos, conserva
uma tradição milenar: _ guando se perde um
ente querido, seus parentes2 e amigos se reúnem
em volta do cadáver, fazendo soar o ritmo kitolo
(aí a lama pouco tempo depois vira poeira).
Os presentes começam a SAMBAR para que Deus tenha
em seus cuidados o ente querido. Normalmente estes começam
a "dançar" ao por-do-sol, e terminam ao
amanhecer, momento em que sepultam o cadáver. Os
movimentos e até mesmo os ritmos assemelham-se ao
Samba brasileiro tendo como principal diferença
nesta altura a expressão dos rostos de quem as dança,
enquanto o Bacongo cobre-se de panos e chora, a brasileira
descobre-se (quase nua) e o faz por razões alegres.
1 O sinônimo de Deus em três
idiomas africanos.
2 O parentesco africano vai até aos bisnetos dos/as
irmãos/ãs do tetra avo.
Estilos Musicais
de Regiões
Africanas texto de Abdu Ferraz
KILAPANGA, seu compasso rítmico assemelha-se aos
estilos caribenhos (o que mais se assemelha a tais estilos é a
Kizomba/ Zuk). O estilo é basicamente sustentado
pelos tambores (Ngoma, Nsacaia e o Tshololo(shololo) "grito
de festa") e pelas quitaras devidamente rítmicas.
Seus representantes a nível internacional, sem esquecer
de outros, são o compositor e vocalista lutchana
Cofi`Olamid e Pepe Kalle.
WALA, estilo musical satírico, diversão
e lazer; este ritmo está presente no Rap Norte Americano.
Na África do Sul o estilo foi internizado pela vocalista "Gn.
Mbada" e sobretudo pela compositora e vocalista "Ivone
Xaca_xaca", nos manifestos contra o apartheid. Este
estilo é um dos ritmos africanos que nas duas últimas
décadas se transferiu para os países de expressão
inglesa (assemelha-se ao reggae). Na década de 60
o estilo incorporou os corais negros e protestantes nos
EUA; na década de 70 o estilo é inovado e
surge como instrumento de resistência à segregação
racial; nos anos 80 Ivone Xaca_xaca estiava definitivamente
a bandeira do estilo Wala nos países de expressão
inglesa. Na mesma época, filmes surgiram retratando
a crueldade do apartheid e eram recheados com coreografias
da tribo zwlw (África do Sul).
KITOLO, é o ritmo tocado para demonstrar a tristeza,
a realização de alguma prece, lamentação,
sátiras etc. É muito tocado nos velórios
ao norte de Angola. Estilo característico dos bacongo
(povo do antigo reino do Congo).
SEMBA, sua semelhança ao Samba não é relativamente
ortográfiaca; existe nela um compasso que freqüentemente
caracteriza o bom samba (a presença do cuíca
os assemelha). É um dos estilos musicas que carateriza
o povo Kimbundo; atualmente não se pode falar do
Semba sem que se fale do "cota Bonga"(mano Bonga),
músico angolano exilado em Portugal, onde seu ritmo
inebria as almas lusitanas, aos brasileiros faz lembrar
o Samba e aos cubanos a Rumba.
KIZOMBA (conhecido como Zuk nas Antilhas) , para não
dizer igual, vamos dizer que ele assemelha-se ao estilo
caribenho. O estilo se identifica muito com as ilhas africanas
e das américas; na África, as ilhas de Cabo
verde e São Tome e Príncipe tem garantido
a produção deste estilo no mercado. Luanda,
capital de Angola é também a capital da kizomba
enquanto dança; mas por falta de uma política
cultural de seu governo esta manifestação
antropológica está se "imigrando" à Lisboa,
ao Rio de Janeiro e à Bahia, onde jovens angolanos
encontram espaço, aceitação e uma
infra estrutura bem melhor a que Luanda oferece. Das Antilhas
surgiu na década de 80 o fenômeno Kassav " Mandioca" banda
que conquistou a África Austral; tendo como vocalista
o antilhano Jacob d` Voaier cuja voz foi severamente criticada
na Europa, esquecendo-se que em suas cordas vocais estava
a África e não a Grécia ou Roma. Sua
voz foi um relâmpago que num instante ao outro se
ouvia, do norte ao sul e do oeste a leste da África
Negra, reativando o que a eles pertenceu.
Os Afro-latinos texto de Abdu Ferraz
Dando-se a tarefa de estudar hábitos e costumes
das Nações que no passado receberam grande
quantidade de africanos, percebe-se que prevaleceram os
hábitos e costumes africanos. Entende-se que os
colonizadores apenas foram capazes de colonizar o físico
do homem africano e nunca a mente. É simples entender
o fato, até porque o fato em si se explica: enquanto
os invasores esvaziavam o Continente Africano de seus melhores
filhos, fazendo-os escravos nas Américas, não
se davam conta de que o produto escravo possuía
hábitos e costumes.Portanto, cultura própria.
Por esta cultura não ser semelhante à cultura
Ocidental, foi por muito tempo entendida como sendo uma
manifestação animalesca. Para Hegel e Coupland,
a África não possui história pelo
fato de não enxergarem elementos da cultura greco-romana
-"Elenismo" nas manifestações dos
povos em contato.
Claro que Hegel tem comparado duas realidades diferentes
buscando nelas a semelhança e não a identidade,
visto que a diferença é o princípio
lógico da identidade. Não achando nelas a
semelhança, a conclusão de Hegel foi certa
logi-camente falando, porém, falsa (uma das premissas
não era verdadeira mesmo sendo certa a estruturação
lógica do pensamento, filosoficamente falando).
Se Hegel priorizasse a diferença, certamente teria
o elemento identidade e isso o obrigaria a afirmar que
os povos em contato possuíam cultura própria,
e possuir cultura própria implicaria em afirmar
que possuíam história, e possuir história
naquele tempo significaria dizer que seus povos possuíam
almas; portanto não deveriam ser escravizados (chocaria
contra a santa e mais pura justiça da época/
clero).
Este fato teve especial cuidado da Igreja e dos invasores,
tanto que desenvolveram a ideologia hoje tida como Barragem
dos Mitos da História da África, impossibilitando
a qualquer curioso chegar à conclusão de
que tais povos eram tão humanos quanto seus colonizadores.
O mesmo tem ocorrido com os nativos das Américas.
Pobres índios.
Fonte: www.portalafro.com.br |